Uma profissão desenvolve-se ao
longo dos tempos, tem a sua história. Compreender a origem da
Terapia Ocupacional e traçar o caminho da sua evolução ajuda-nos
a entender a sua sequência de desenvolvimento conceptual que
ocorreu em paralelo com o desenvolvimento da prática.
Não existe uma data precisa sobre
a fundação da Terapia Ocupacional. Algumas ideias e práticas são
identificadas durante o século XIX contudo, a Terapia
Ocupacional tem a sua origem nos Estados Unidos da América no
início do séc. XX. O nome da profissão foi atribuído por George
Barton em 1914. George Barton era arquitecto e começou a
interessar-se pelo uso da ocupação como método de tratamento
devido à sua experiência pessoal como indivíduo portador de
deficiência. Fruto desse interesse, estabeleceu contacto com
outras pessoas que usavam a ocupação como tratamento e em 1917
formou a Associação Nacional para a Promoção da Terapia
Ocupacional (National Association for the Promotion of
Occupaccional Therapy). Este acontecimento é visto como o início
formal da Terapia Ocupacional na América do Norte. O pequeno
grupo de pessoas que contribuiu para tal, era constituido por
George Edward Barton (Arquitecto), Susan Cox Johnson (Professora
de Design), Isabel G. Newton (Secretária), Eleanor Clarke Slagle
(Estudante de Assistência Social), Susan Edith Tracy
(Enfermeira), Thomas Bessell Kidner (Arquitecto) e William Rush
Dunton, JR. (Psiquiatra). Em 1921, a Associação mudou o seu nome
para Associação Americana de Terapia Ocupacional (American
Occupational Therapy Association [AOTA]).
Embora os Estados Unidos tenham
sido o primeiro país a formar uma associação nacional de
Terapeutas Ocupacionais, muitos outros países se seguiram nos
anos 30 e 40: a Associação Canadiana de Terapeutas Ocupacionais
(1934), a Associação Inglesa de Terapeutas Ocupacionais (1936) e
a Associação Australiana de Terapeutas Ocupacionais (1945).
Em 1952 é criada a Federação
Mundial de Terapeutas Ocupacionais, WFOT (World Federation of
Occupaccional Therapists) , instigada pelos membros da World
Congress on the Welfare of Cripples, actualmente designada por
International Society for the Rehabilitation of the Disabled. Os
membros fundadores foram os Estados Unidos, Canada, Dinamarca,
Reino Unido, África do Sul, Suécia, Nova Zelândia, Austrália,
Israel e Índia. O advento da Segunda Guerra Mundial foi um dos
motivos que possibilitou este impulso, porque levou a um esforço
intensivo para providenciar serviços de reabilitação a todos os
países afectados pela guerra. A troca de informação relacionada
com parâmetros de educação tornou-se numa enorme preocupação.
No entanto, para a Terapia
Ocupacional atingir esta marca passou por várias fases que
influenciaram de forma vincada o desenvolvimento da profissão.
A 1ª fase define-se por
Pré-paradigma e desenvolve-se no séc. XVIII e XIX, inicialmente
na Europa e depois na América do Norte. É uma abordagem
relacionada com os cuidados prestados a doentes mentais que é
denominada por Tratamento Moral. A premissa central do
Tratamento Moral estabelece que a participação nas variadas
tarefas e eventos da vida diária poderia fornecer às pessoas uma
função mais saudável e satisfatória. As mais importantes raízes
da Terapia Ocupacional encontram-se no Tratamento Moral.
Os seguidores desta abordagem
acreditavam que as pessoas se tornavam mentalmente doentes
quando adoptavam hábitos de vida errados que os desligavam da
principal linha de vida. A sociedade tinha a obrigação de ajudar
estas pessoas a retomarem um padrão de vida satisfatório.
No final do séc. XIX, factores
sociais contribuíram para o fim do Tratamento Moral nos Estados
Unidos.
Assim, no princípio do séc. XX,
inicia-se a 2ª fase, onde um grupo diversificado de pessoas
(Assistentes Sociais, Enfermeiros, Arquitectos...) começaram a
reaplicar princípios do Tratamento Moral em diversas áreas do
tratamento de indivíduos doentes e incapacitados. Surge o
paradigma da Terapia Ocupacional. Este foca-se na ocupação e o
seu papel na vida e saúde humanas, revelando potencial como
ferramenta terapêutica.
O aparecimento deste paradigma
possibilitou à Terapia Ocupacional identificar-se a si mesma
como uma área que valoriza a importância da ocupação na vida
humana e a utiliza como meio terapêutico.
Segundo Kielhofner, o paradigma da
Ocupação assentava nos pressupostos seguintes:
A Ocupação ocupa um
papel importante na vida humana e influencia o estado de saúde e
o bem-estar de cada indivíduo;
A Ocupação consiste
na alternância entre os estados de ser, pensar, agir, e requer o
equilíbrio dos três na vida diária;
O corpo e a mente
são um todo inseparável;
Falta de actividade
pode resultar em degradação do corpo e da mente;
A Ocupação pode ser
utilizada para regenerar uma perda de função.
Este paradigma salientava ainda o
ambiente, corpo e mente tendo atenção à motivação e factores
ambientais no desempenho, apresentando como valores integrados:
Dignidade humana é assente no desempenho; importância da
Ocupação para a saúde; ponto de vista Holístico.
Nas décadas de 1940 e 1950 a
Terapia Ocupacional vê-se colocada sob pressão pela Medicina,
para estabelecer uma análise teórica, racional e empírica da sua
prática. Para a Medicina, as evidências dos resultados da
Terapia Ocupacional eram muito poucas. Desponta assim a 3ª fase,
na qual a Terapia Ocupacional sofre uma crise.
Quando analisada sobre o ponto de
vista da perspectiva reducionista da Medicina, a visão holística
da Terapia Ocupacional e o seu enfoque na ocupação como um meio
de Terapia foi mal compreendida. Como consequência da
discrepância entre os paradigmas da Medicina e da Terapia
Ocupacional, o último foi considerado insuficiente quer no campo
da teoria como no da investigação. Deste modo, alguns Terapeutas
Ocupacionais afirmavam que a Terapia Ocupacional necessitava de
conhecer a função e disfunção subjacentes aos mecanismos
neuronais, anatómicos e intrapsiquicos.
Assim, verificava-se o
aparecimento de um novo paradigma, reflectindo uma nova cultura
profissional: “à medida que falámos de técnicas, pensemos nos
princípios subjacentes e construam-se procedimentos baseados em
factos científicos” (McNary, 1958).
Este novo paradigma representa a
4ª fase, e segundo Kielhofner designa-se por paradigma
Mecanicista. Este prometia trazer reconhecimento à Terapia
Ocupacional como um serviço médico eficaz (Ayres, 1963; Fidler,
1958; Rood, 1958). Com este paradigma a Terapia Ocupacional
pretendia ganhar uma posição científica respeitável na
comunidade médica. O seu ponto de vista central focalizava-se
nos mecanismos internos neurológicos, cinesiológicos e
intrapsíquicos e no modo como estes influenciavam a função e a
disfunção.
Segundo Kielhofner, o paradigma
tinha como pontos centrais:
A capacidade de
desempenho depende da integridade dos sistemas nervoso,
músculo-esquelético e sistemas intrapsíquicos;
Lesão ou
desenvolvimento anormal dos sistemas internos podem resultar em
incapacidade;
O desempenho
funcional pode ser restaurado melhorando/compensando as
limitações dos sistemas internos.
Este paradigma define ainda que os
mecanismos internos, são intrapsíquicos, neurológicos e trabalho
cinestésico, apresentando como valores integrados: Conhecimento
preciso e compreensão do funcionamento interno; valor do
funcionamento interno para a função; valor dos meios para
reduzir a incapacidade.
Segundo Kielhofner “a transição do
paradigma da Ocupação para o paradigma Mecanicista representa
mudanças importantes sobre a forma de pensar e conduzir a
prática da Terapia Ocupacional”.
Mas, apesar do paradigma
Mecanicista alcançar muitas das suas promessas, também projectou
algumas consequências imprevistas e indesejáveis para o campo da
Terapia Ocupacional. Irrompe então a 5ª fase, definida como uma
segunda crise na Terapia Ocupacional, crise essa que decorreu na
década de 70. A perspectiva da Terapia Ocupacional perante o Ser
Humano tinha mudado radicalmente. A visão inicial da natureza
Ocupacional do Ser Humano: Unidade, corpo e mente,
auto-manutenção através da actividade e o ritmo dinâmico do
comportamento organizado, foram substituídos por uma perspectiva
mais profunda. O pensamento holístico foi substituído por um
ênfase reducionista sobre o funcionamento interno do corpo e
psique.
Assim, verifica-se que durante os
anos 60 e 70 cresce o reconhecimento de que a Terapia
Ocupacional carecia de falta de identidade unificante. A Terapia
Ocupacional começava a tornar-se diversificada e fraccionada e
faltava união entre os grupos da especialidade. Pôs-se em causa
a aliança com a Medicina e o facto do paradigma Mecanicista
eliminar a ideia seminal da profissão: a importância da Ocupação
como um meio de restaurar a saúde.
Shannon, referia que a Terapia
Ocupacional estava a pôr em risco a sua existência, devido ao
abandono das ideias e valores que criaram e construíram a
profissão. Tendo em conta todos estes factos, desponta a
necessidade da criação de um novo paradigma. Mary Reilly,
professora de Terapia Ocupacional, e outros, desenvolveram nos
anos 60 e 70 um conjunto de princípios e conceitos cujo
objectivo era recuperar os princípios do primeiro paradigma.
Esta escola de pensamento, intitulada Comportamento Ocupacional,
incorporava os seguintes princípios:
Um retorno ao foco
central na Ocupação;
Reconhecimento da
motivação humana para a ocupação;
Estudo do sentido de
tempo, objectivo e responsabilidade pessoal para a adaptação;
Examinação do papel
Ocupacional no comportamento;
A importância do
ambiente como suporte ou impedimento na adaptação.
A integração de
conhecimento interdisciplinar, necessário para esta perspectiva
de um instrumento holístico.
Com o tempo, o tema da
ressurreição dos conceitos e ideias originais da Terapia
Ocupacional começou a ser falado pela comunidade profissional.
Assim, no início dos anos 80 surge
a 6ª fase, Paradigma Emergente, que se estendeu até aos tempos
de hoje. Tendo a Terapia Ocupacional passado por dois paradigmas
anteriores, está a desenvolver um terceiro que sintetiza os
pontos fortes de ambos. Segundo Kielhofner, o Paradigma
Emergente assenta nas seguintes suposições:
1. Os Seres Humanos têm uma
natureza Ocupacional.
Ocupação é parte da
condição humana
Ocupação é
necessária para a sociedade e cultura
Ocupação é requerida
para o bem-estar físico e psicológico
Ocupação precisa de
determinados componentes de desempenho
Ocupação é
determinante para o desenvolvimento e é o seu produto
2. Os Seres Humanos podem
experimentar uma disfunção Ocupacional.
Falta de Ocupação
nega a experiência humana total
Disfunção
Ocupacional pode provocar outras disfunções
Disfunção
Ocupacional envolve alterações nos Componentes de Desempenho
Disfunção
Ocupacional é multivariada
3. A Ocupação pode ser usada como
um agente terapêutico.
Ocupação é o agente
básico da Terapia
Terapia Ocupacional
mantém e previne perda de capacidade e realiza adaptações
Terapia Ocupacional
requer a actividade significativa do utente
Relativamente à primeira
suposição, os seus temas dão sentido ao conceito de ocupação e
providenciam uma orientação para a sua importância e natureza. A
apreciação das dimensões da ocupação é importante para a
identidade do campo e serve como modelo, influenciando os
aspectos tidos em conta pelos modelos práticos conceptuais.
De acordo com a segunda suposição,
as pessoas podem experimentar disfunção Ocupacional. A disfunção
Ocupacional não é sinónimo de doença, ao invés, ocorre sempre
que o comportamento Ocupacional é quebrado. Os 4 temas ajudam a
definir a disfunção Ocupacional como um problema multivariável,
envolvendo as alterações dos componentes de desempenho. Tal
disfunção nega a totalidade da experiência humana e pode
contribuir para outras desordens.
A terceira suposição define a base
dinâmica da Terapia Ocupacional. Os 3 temas representam os temas
subjacentes ao uso da ocupação como uma ferramenta terapêutica e
definem condições sob a qual a ocupação tem um efeito
terapêutico e o tipo de impacto que pode ter.
Em relação ao ponto de vista deste
paradigma, cedo se reconheceu a necessidade deste incluir tanto
a mente como o corpo, bem como ter em consideração o sistema
social e cultural. Segundo Mosey, a Terapia Ocupacional abarca o
espectro do fenómeno biológico, psicológico e social. Devido à
necessidade de interrelacionar estes 3 aspectos, o ponto de
vista deste paradigma é baseado num contexto holístico – Ser
Humano visto como uma totalidade física, emocional, cognitiva,
social e cultural. Neste contexto incluem-se os componentes de
desempenho biológicos, psicológicos e socioculturais.
Os valores em que ele assenta são:
Dignidade e valor do
individuo;
Participação em
Ocupações;
Auto-determinação,
liberdade e independência;
Capacidade latente;
Elementos
interpessoais da Terapia;
Individualidade
humana e subjectividade;
Cooperação mútua na
Terapia.
Para que uma disciplina seja
coerente, os seus membros têm de partilhar uma cultura comum,
bem como uma visão do seu trabalho. Este paradigma serve como
ponto de referência para o desenvolvimento dos modelos da
prática profissional. Para Kielhofner, ele guia e reflecte os
interesses dos Terapeutas Ocupacionais, o seu modo de observar o
mundo e as suas ideias sobre como a área de trabalho deve ser
realizada. Tal homogeneização dos membros com uma cultura
profissional, possibilita o aumento da coesão e permite ao grupo
apresentar-se à sociedade de uma forma mais consistente e
portanto reclamar a legitimidade profissional.