Texto gentilmente cedido pelos autores identificados em rodapé.
 


 

        

 

 

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A construção de um novo rumo da Terapia Ocupacional

 

         

  Patricia Moreira Bastos (patriciam.bastos@terra.com.br)

*Trabalho apresentado no III Encontro de Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais em Santa Catarina-2003.

 

 

Para estar aqui neste encontro hoje só foi possível, na medida em que me propus a compartilhar meus conhecimentos com os conhecimentos de todos vocês, na construção de um novo rumo da Terapia Ocupacional.

Para tanto, foi necessário reunir tantos outros saberes, de tantos pensadores que percorreram caminhos também para a construção de conhecimentos, e que felizmente contribuíram historicamente com o que fomos, somos e possivelmente  seremos.

Acredito que o futuro sempre será resultado da relação entre o passado e o presente, e de como esta relação pode ser vivenciada em termos de crescimento e desenvolvimento.

Portanto, convido a todos para uma viagem histórica com assentos garantidos para um futuro que só depende de nossa consciência enquanto terapeuta ocupacional.  

Todos nós sabemos que o homem pensa, progride, e que pode agir livremente; entretanto tende a negar o que é invisível ou o que não seja percebido pelas sensações, não se dando conta que sua existência  está na sua consciência, uma consciência intencional.  (A intencionalidade da consciência significa que toda consciência é não somente consciência, mas também consciência de alguma coisa, implicando numa relação intrínseca com o objecto.)

 A consciência é o sustentáculo das operações vitais do homem, o que faz com que  viva, sinta, se locomova, e entenda; uma realidade que subsiste por si só, imaterial, espiritual, e que necessita de uma causa, que explique essencialmente a existência do homem.

Tal causa não deve ser algo simplesmente acidental ou superficial, pois o sentimento, a vontade, a inteligência são realidades profundas e que caracterizam o ser humano como uma criatura peculiar, especial.

 

“ A existência do Eu como sujeito de todos os actos do indivíduo é um fato experimentado pela própria consciência do sujeito.”

 (GIRARDI,1988,25)

 

Pensar em Terapia Ocupacional é antes de tudo definir nossa visão de homem, enquanto existência, o que representa uma tarefa que exige conhecimento; e quanto mais os homens conhecem o homem, mais temerária se torna a tentativa de definição.  

É em razão disso que Gabriel Marcel se refere ao homem como “mistério”; e Sartre,  que “o homem não é o que é, pois ele é o que não é”, o homem está sendo; é no que ele é capaz de ser e não meramente no que ele é.  

O homem é um ser pensante, co-criador, e transformador de sua realidade.

O auto conhecimento é possível à partir da convivência com o outro, pois viver é radicalmente conviver.  Viver, é  ser para-o-outro e com-o-outro.  

O homem comporta-se à partir da racionalidade, o que lhe permite a condição de auto-determinação, enfim, de ser livre. Entretanto, essa liberdade está condicionada a um processo de maturação, no qual sua manifestação é exercida gradativamente, conforme o desenvolvimento da razão.

 

“eu sou livre de tudo...excepto de não ser livre. Portanto eu estou condenado a ser livre.”

(SARTRE)

   

“O homem livre quer dizer, aquele que ouve apenas segundo os conselhos da razão, não é dirigido na sua conduta pelo temos da morte, mas deseja directamente o bem...”.

(ESPINOSA)

 

A liberdade, aquela que captamos em nós, é a consciência da acção exercida por uma ideia, a saber, a ideia do máximo de independência que sob a dupla relação da causalidade e da finalidade, pode atingir o eu que concebe o universal.

A liberdade é a imunidade de vínculos ou marcas; podendo ser física quando dirigida aos movimentos e deslocamentos, moral quando envolve as questões legais, e, psicológica ou pessoal, também chamada de livre-arbítrio, ao permitir tomar decisões ou escolhas conforme sua vontade, inteligência  e intencionalidade.  

Pensando, o homem faz, realiza, transforma e busca um rompimento com aquilo que traz em si, abrindo-se para a transcendência.

O pensamento é condicionado pela acção, a vida não consiste apenas em pensar logicamente, mas também em agir.  

KANT reconheceu que o homem pode utilizar seu intelecto – sua razão, não apenas como receptor de impressões mas como criador de ideias – a faculdade de pensar.   

Quando o homem desperta para o conhecimento, passa a construir uma trilha infinita, onde se volta para sua interioridade para desvendar-se, e para exterioridade para relacionar-se com a realidade circundante, integrando-se nela e na realidade de seu ser.  

Então, percebe que os horizontes de sua liberdade dependem dos horizontes do seu conhecimento. A garantia do conhecer está na intencionalidade da busca da verdade. A vida humana é essencialmente ação.

O  ato de reflectir e o valor do conhecimento são legitimados através da atitude. Toda acção é efeito, então, estando o ato de reflectir relacionado com o ato de pensar, é a atitude pensada na verdade que qualifica o conhecimento, e não a simples e consequente acção motora.  

O ser humano desenvolve sua vida em plenitude através da acção. O conhecimento só tem razão de ser na medida em que estimular a actividade, a acção na linha da utilidade.  

Ao buscar o futuro, algumas questões são importantes:

Por onde têm caminhado os terapeutas ocupacionais?

O que têm aprendido e o que nos ensinam dessas experiências?

Quem ensina a quem?  

Embora tenha sido no início do século XX seu surgimento formal, no período entre 1950 e 1960,  permeava a prática reabilitadora da atenção terciária, na qual a Terapia Ocupacional agia isoladamente; somente entre as décadas de 60 e 70, a profissão de Terapia Ocupacional foi reconhecida como de nível superior, num contexto de importantes mudanças.  

Segundo Michelle Hahn, a Terapia Ocupacional nesses 20 anos, passou por um processo  significativo de mudanças, o qual representou o deslocamento de um espaço restritamente de ambiente hospitalar de atenção aos pacientes crónicos, para a integração em equipes multiprofissionais de manutenção e prevenção nos locais de atenção secundária de cuidados a saúde, como ambulatórios de saúde mental, centros de saúde, hospital-dia, centros de atenção psicossocial, centros de convivência, etc.  

Desta forma, foi possível, juntamente com outros profissionais, construir uma nova terminologia para aquele que recebia os cuidados em saúde : os pacientes de ontem, passaram a clientes e usuários.  

Um outro dado importante refere-se ao acréscimo do contexto da educação, onde foi possível viabilizar um programa de atenção, o qual visava integrar pressupostos teóricos para configurar-se em um programa de saúde, com ações e intervenções de natureza educativa e de aconselhamento.  

Inicialmente era como “técnico em laborterapia”, que actuava  no “emprego cientifico de qualquer  tipo de ocupação ou trabalho, na reabilitação do incapacitado”, para posteriormente passar a denominar-se de terapeuta ocupacional  , se tivesse diploma do curso de Terapia Ocupacional.  

A Reforma Universitária, fez com que alguns estabelecimentos prestadores de serviços em Reabilitação perdessem sua autonomia, e fossem integrados as unidades hospitalares e/ou desactivados, permitindo com isso uma reformulação do curso de Terapia Ocupacional.  

Segundo DE CARLO (2001,35) a década de 70, representada por uma necessidade de abertura e democratização, e crescimento dos movimentos sociais, poderia ser considerada uma fase de grande aquecimento e fortalecimento, para a busca de definições, especificidades e construção da identidade da Terapia Ocupacional.  

Alguns estudiosos como Fidler & Fidler, Azima &  Azima, Mosey, Ayres, Reilly, Kielhofner, entre outros, contribuíram na produção cientifica inovadora da Terapia Ocupacional.

Outros estudiosos, terapeutas ocupacionais, tão importantes quanto os já citados, deram significativo impulso à Terapia Ocupacional com suas defesas cientificas e profissionais, reflectindo no  desenvolvimento de  novas formas de olhar e de actuar, assim como na fomentação de novos campos de trabalho.  

Para LANCMAN (1995, 58) os anos 80 foram marcados profundamente pelo conflito gerado com a falta de sistematização do conhecimento e a consequente indefinição de identidade da Terapia Ocupacional.

Este movimento contribuiu para o repensar de praticas e concepções envolvendo a actividade e sua terapeuticidade, contra “uma ocupação esvaziada de significado e distanciada das necessidades reais dos pacientes”.  

A busca de desmistificação do uso terapêutico da actividade, na tentativa de elaborar novos conceitos ideológicos, resultou no desenvolvimento da  ideia da actividade como recurso terapêutico da Terapia Ocupacional, passando a significar que toda intervenção estaria dirigida para o individuo e seu grupo social, possibilitando-se condições de bem-estar e autonomia.  

Os anos 90, caracterizaram-se basicamente, pela procura de especializações e cursos de pós-graduação que subsidiassem a prática clinica; conseqüentemente com a formação crescente de pesquisadores e professores de ensino superior, deu-se lugar um novo perfil de profissional e campo de actuação.  

Segundo Lancman, os terapeutas ocupacionais, embora apresentassem um perfil mais técnico e voltado para a clínica, passaram a ampliar seus horizontes galgando espaços como criadores e transformadores dos sistemas de saúde onde estavam inseridos. Este movimento representou a busca pela produção e sistematização de conhecimentos.  

Esta fase reflectiu ainda uma somatória de mudanças e ampliações no campo de trabalho da Terapia Ocupacional, como resultado dos seus avanços e a contextualização institucional em saúde, educação e pesquisa.  

Desde então, a apropriação de teorias e metodologias de outras áreas de saber têm sido realizada visando adaptá-las e/ou adequá-las as necessidades de construção de um referencial próprio e urgente, para um relacionamento de igualdade com a ciência.  

Mesmo considerando o surgimento de novas necessidades e especificidades, é importante manter o nível de reflexão em desenvolvimento sobre o corpo de conhecimentos que no momento compõe a formação do terapeuta ocupacional, para que o curso do pensar  possa expressar-se diferentemente  de “dentro” para o exterior.    

Embora a conjuntura política-social e econômica não permitir grandes perspectivas, o mercado se mantém em processo de ampliação contínua, quando flexibiliza os perfis profissionais.  

Para MAXIMINO, a pouca clareza relativa a definição da Terapia Ocupacional, poderia possibilitar uma prática mais criativa e identificada com o profissional e sua realidade. Neste aspecto, torna-se necessário identificar os instrumentos necessários para responder as exigências de um mercado, que busca um profissional ágil e “multi”, ao mesmo tempo em que terceriza serviços especializados.  

Este panorama dá lugar a alguns questionamentos relativos a:

·  capacitação do terapeuta ocupacional, na organização e prestação de serviços;

· qualidade de serviço  

É fundamental, portanto, o dialogo com o fora. Fora de si mesmo, fora do hospital, fora do consultório de atendimento, fora das formas e configurações já existentes. A verdadeira prática clínica tem que pensar a inserção do indivíduo no mundo e o diálogo constante entre as formas vigentes e as que estão sendo engendradas.  

Para Lima (1997,100), o trabalho da Terapia Ocupacional, um dia chamado de reabilitação, perpassa  atualmente por diversos paradigmas, para alcançar uma clínica também contextualizada, onde se faz necessário repensar sempre o constante transitar entre interno e externo, dentro e fora, individual e colectivo, sujeito psíquico e representações sociais, trabalho de estruturação do sujeito e trabalho de reinserção social.          Em a “vida é actividade, princípio que rege tanto a vida corporal como a mental, dado que o homem nunca permanece sem fazer nada; senão faz algo útil, faz algo inútil”, segundo Francisco (1990,35), é possível entender que o homem é dotado de uma natureza ocupacional, o que caracterizou-o como detentor activo de potencial de construção e transformação de sua realidade, portanto, qualquer mudança ou situação que venha trazer algum prejuízo ou disfunção ao homem, pode ser  considerado como consequência da ausência ou comprometimento de actividade ou ocupação, através das actividades relacionadas ao trabalho, de vida diária, de vida prática e de lazer.  

É possível então perceber que quando o homem encontra-se numa situação de harmonia e equilíbrio de sua realidade, fazendo uso activo de seu tempo-espaço, ele responde a uma manifestação de qualidade de vida e saúde.  

A actividade humana, é a atividade da consciência, resultado da relação entre a reflexão e a acção, mediados pela intencionalidade, vontade, e liberdade.  

Para DE CARLO (2001,47) “ as actividades humanas são constituídas por um conjunto de acções que apresentam qualidades, demandam capacidades, materialidades e estabelecem mecanismos internos para sua realização. Elas podem ser desdobradas em etapas, configurando um processo na experiência da vida real do sujeito. A linguagem da acção é um dos modos de conhecer a si mesmo, de conhecer o outro, o mundo, o espaço e o tempo em que vivemos, e a nossa cultura. São elas que darão forma e estrutura as fazer dos sujeitos,..., estabelecendo um sistema de relações que envolve a construção da qualidade de vida cotidiana.”          E a qualidade de vida quotidiana, nada mais é que a percepção subjectiva do sujeito sobre seu bem estar e sua condições de vida.  

O quotidiano não é rotina, nem a mera repetição autómata de movimentos ou acções que levem um fazer por fazer. O quotidiano, segundo FRANCISCO (1988,86) é o espaço próprio onde o sujeito busca praticar sua actividade criativa e transformadora. É o espaço social que o sujeito ocupa, vive.  

Ao longo destes quase últimos 40 anos, a construção de concepções e campos de trabalho da Terapia Ocupacional, têm fortalecido não só as novas definições relativas a sua identidade, como permitido a delineação de novos campos de trabalho, sem perder de vista o contexto sócio-histórico e cultural.  

Em todo esse percurso, o terapeuta ocupacional foi obrigado a acompanhar os diferentes e crescentes movimentos de mudanças e transformações que o levam a uma nova forma de olhar da Terapia Ocupacional.  

É num perfil de multidimensionalidade que a Terapia Ocupacional vem se inserindo para responder as demandas decorrentes da dinâmica cinética ocupacional  reflectida pela actividade humana.  

Possivelmente, este perfil de multidimensionalidade venha permitindo, e permitirá sempre ao terapeuta ocupacional, a oportunidade de perceber e interagir numa diversidade de acções e contextos, desde a tecnologia que acompanha os avanços científicos até as intervenções comunitárias, sempre centrando sua busca na garantia de qualidade de vida quotidiana.  

Entretanto, embora se possa estar vivenciando uma diversidade de propostas e diferentes realidades socioculturais, as desigualdades e diferenças também permeiam a intervenção da Terapia Ocupacional, na medida em que se convive com um confronto entre o momento histórico de extremo avanço tecnológico, com acesso limitado para alguns personagens da humanidade, e  a luta pela aquisição de recursos básicos de sobrevivência com dignidade.  

A Terapia Ocupacional, manifestada por terapeutas ocupacionais, precisa estar ciente desta realidade - desde quando é a atividade humana e a consciência de saber fazer, que justificam sua acção,  para que possa  intervir estabelecendo condições de relações sociais mais justas, assegurando através de suas acções a qualidade de vida para o indivíduo.  

As perspectivas para a  Terapia Ocupacional, estão voltadas para o desenvolvimento  de acções respaldadas em pesquisas científicas, pela consolidação , e principalmente pela socialização, de seus saberes.  Conta-se actualmente com 32 cursos de Terapia Ocupacional no Brasil, e ao contrário do que se possa pensar, não é a multiplicação de cursos que vai garantir qualidade de formação académica.  

Atualmente, a Terapia Ocupacional  compõe as equipes de diversos programas de saúde, conforme as inúmeras portarias ministeriais, abrangendo contextos da saúde mental, transplante de medula, programa canguru, saúde do trabalhador, programas para portadores de deficiências, etc., mas ainda não corresponde em toda a plenitude das demandas sociais.  

A produção cientifica têm representado significativa ampliação de suas fronteiras, permitindo aos profissionais, mais acesso na comunidade científica, porém não se tem muito claro a qualidade da formação académica e a expansão e/ou socialização de conhecimentos.  

É uma condição vital para a Terapia Ocupacional, que o mercado conte com profissionais mais éticos, críticos e atentos à sua realidade, comprmetidos com o desenvolvimento de conhecimentos e com o incremento da profissão, para bem além do tão antigo e já descolorido jargão do “conflito de identidade” .

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DE CARLO,Marysia M.R.Prado. & BARTALOTTI,Celina C. Terapia Ocupacional no Brasil:fundamentos e perspectivas,Plexus,São Paulo,2001.

FRANCISCO,Berenice Rosa. Terapia Ocupacional. Papirus,Campinas,1988

GIRARDI,Leopoldo Justino. Filosofia.Acadêmica,Porto Alegre,1988.

GOBBI, Sérgio Leonardo. & MISSEL, Sinara Tazz. Abordagem centrada na pessoa: vocabulário e noções básicas, Ed.Universitária, UNISUL, Tubarão,1998.    

HAHN,Michelle Selma. Promoção da saúde e terapia ocupacional. Revista do Centro de Estudos de terapia Ocupacional, vol.1,nº 1,p.10-13, São Paulo, 1995.

LANCMAN,Selma.O lugar da terapia ocupacional hoje, seu corpo de conhecimento e sua especificidade.Revista do Centro de Estudos de Terapia  Ocupacional, vol.1,  nº 1, 58p,São Paulo, 1995.

LIMA, E.A. Terapia Ocupacional: um território de fronteira? Rer.Ter.Ocup.Univ.São Paulo ,v.8  n.º2/3, p.98-101, maio / dez.1997

MAXIMINO,V.S.Novos desafios para a terapia ocupacional. Rev.Ter.Ocup.Univ.São Paulo,v.8 n.º2/3, p.61, maio / dez.1997

MEDEIROS,Maria Heloisa da R. Editorial.Cad.de Terapia Ocupacional da UFSCar,ano IX vol.9 nº 1, São Paulo, janeiro/junho/2001

 

 

 

 


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