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Patrícia Ferreira Bezerra.
Universidade do Estado do Pará - UEPA.
INTRODUÇÃO
Para que se possa compreender o papel do
Terapeuta Ocupacional como facilitador da
relação materno-infantil, primeiramente faz-se
necessário apresentar conteúdos teóricos para um
melhor entendimento acerca dos processos que
constituem essa relação, bem como das diversas
formas nas quais esta pode apresentar-se. Logo
após esses conceitos, serão propostos os
objetivos da Terapia Ocupacional no contexto
materno-infantil, bem como algumas das diversas
formas de intervenção prática junto a mães no
período de hospitalização pós-parto, de acordo
com a realidade observada no setor de
Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de
Clínicas Gaspar Viana.
Vale ressaltar que este trabalho visa demonstrar
alternativas para melhorar a qualidade de vida e
favorecer o desenvolvimento psíquico saudável da
criança, com enfoque voltado a ela, apesar da
atuação terapêutica destinar-se à mãe, a partir
da qual têm origem os principais componentes que
podem desencadear distúrbios no desenvolvimento
infantil.
1. O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E AS RELAÇÕES
OBJETAIS.
O bebê não nasce com percepções perfeitas;
estas desenvolvem-se (...) com a experiência e a
crescente maturidade (Gesell, 1999, p. 8).
Ao nascer, a criança é um organismo que reúne
aspectos congênitos e tendências, não possuindo
consciência ou percepção consciente, somente
recebendo estímulos biológicos e psíquicos. Cada
criança apresenta um equipamento congênito
diferente, formado a partir de componentes
hereditários, influências da vida intra-uterina
e experiências a partir do parto. Dentro dessa
totalidade, primeiramente indiferenciada, é que
irão se desenvolver as funções e estruturas
psíquicas, e as pulsões instintivas,
diferenciadas progressivamente. 1, 4
Ao primeiro ano de vida, a sobrevivência da
criança dependerá da elaboração de elementos
para sua adaptação ao meio, sendo que, sozinha,
ela é incapaz de sobreviver. Assim, a satisfação
de suas necessidades deve ser realizada pela mãe
ou substituto adequado, através de uma relação
de complementação mútua, até que a criança se
torne menos dependente do meio, somática e
psicologicamente. 4
Sob o ponto de vista psíquico, que será abordado
neste trabalho, a criança recém-nascida (RN)
ainda não diferencia seu contingente anatômico
do meio físico, fazendo com que seu
desenvolvimento psicológico seja essencialmente
dependente das relações sociais (objetais) que
irá estabelecer, a partir das quais esta
diferenciação terá início, assegurando a
sobrevivência da criança e contribuindo para seu
desenvolvimento psíquico, somático, e para a
formação de sua personalidade. 1, 4
Este processo ocorre através dos mecanismos de
maturação (desdobramento das funções
inatas da espécie humana, tendo início desde o
período embrionário) e desenvolvimento
(construção de funções e comportamentos
resultantes da interrelação da criança consigo
mesma e com o meio externo). Assim, no RN ainda
não há ego, simbolismo ou mecanismos psíquicos
de defesa, podendo-se encontrar somente traços
fisiológicos que mais tarde permitirão à psique
desenvolver-se. 4
Sabe-se também que, ao nascer, a criança passa
por várias etapas de desenvolvimento motor,
psíquico e social, sendo que inicialmente a
presença da mãe é o agente externo estimulante
para as suas respostas, determinadas conforme os
afetos e comportamentos maternos. É justamente
essa relação entre mãe e filho que se
constituirá na primeira relação objetal da
criança, onde um vínculo inicialmente
fisiológico transforma-se gradualmente na
primeira relação social humana, passando de uma
interação parasítica intra-uterina a uma
simbiose psicológica, durante o primeiro ano de
vida, culminando posteriormente nas interações
sociais. 4
O objeto libidinal da criança, ou seja, aquele
que torna possível a satisfação de suas pulsões
instintuais, muda constantemente, de acordo com
a maturação e diferenciação dessas pulsões.
Assim, no RN, as relações objetais constituem-se
a partir de um sujeito (o próprio RN) e um
objeto (inexistente), pois inicialmente a
criança apresenta-se em um estágio pré-objetal,
passando posteriormente a um estágio precursor
do objeto, e ao estágio do próprio objeto
libidinal. 4
Durante o estágio pré-objetal, a criança
apresenta uma barreira que a protege contra
estímulos externos, sendo suas sensações
basicamente interoceptivas e proprioceptivas.
Qualquer estímulo que rompa essa barreira de
proteção irá desencadear reações de desprazer na
criança (como o choro por exemplo). Após o
nascimento, esse comportamento é observado
somente quando a criança é submetida a estímulos
que ultrapassam seu limiar perceptivo,
provocando-lhe desconforto. 4
Freud citado por Spitz (1996) afirma que, como
não há consciência ao nascimento, o que se chama
"trauma do nascimento" não deixa lembrança na
criança. O que se observa é um breve estado de
excitação, com características de desprazer, o
que caracteriza o princípio do nirvana
(qualquer tensão que ultrapasse o limiar de
excitabilidade precisa ser descarregada), a
partir do qual as funções psíquicas irão se
desenvolver e se consolidar, governadas
inicialmente pelo princípio do
prazer-desprazer, e posteriormente pelo
princípio da realidade. 4
Já as manifestações de prazer no RN traduzem-se
na sua quietude, e não em atitudes que
geralmente sugerem prazer (como sorrisos
reflexos ou agitação motora), assim como a sua
maneira de demonstrar afeto não é tão explícita
ou óbvia quanto a de um adulto. 4
Todos os estímulos que incidem sobre o bebê logo
após o nascimento lhe são estranhos ou possuem
pouco significado, sendo que as primeiras
reações cognitivas vão gradualmente sendo
acrescentadas, para formar uma imagem do mundo
para a criança. Os traços de memória, porém, são
estabelecidos enquanto o processo de percepção
ainda está se desenvolvendo.1, 4
Alguns fatores que contribuem para a proteção da
criança contra os estímulos externos
prejudiciais são a barreira de excitabilidade
(já citada), a seletividade dos estímulos
(capacidade da criança selecionar os estímulos
que podem lhe satisfazer) e o meio ambiente,
do qual a mãe faz parte, e desempenha o papel de
proteger o bebê da sobrecarga de estímulos
desagradáveis (temperatura, fome, ruídos,
luminosidade, etc.). Assim, a mãe dá assistência
ao bebê quanto há descarga de tensão relacionada
aos estímulos externos, alimentando-o,
trocando-o, cobrindo-o, e modificando suas
condições e aliviando tensões desagradáveis.
4
O RN possui reações inatas, determinadas
fisiologicamente, como a realização de
seqüências de movimentos reflexos (por exemplo,
o segurar, sugar o bico do seio, engolir, e
soltá-lo ao final da mamada). Esse tipo de
comportamento é desencadeado pelo conjunto de
sensações do RN, onde a sensação é centrada no
sistema nervoso autônomo, e manifesta-se sob a
forma de emoções, onde a recepção do estímulo
desencadeia o comportamento, constituindo uma
organização cinestésica do comportamento. Outro
tipo de organização, que deriva desta, é a
organização diacrítica, na qual a recepção
ocorre através dos órgãos dos sentidos, e
centraliza-se no córtex, desencadeando reações
cognitivas e pensamentos conscientes, estando
ainda ausente no RN. 4
É por volta do fim da primeira semana de vida
que o bebê começa a responder aos estímulos.
Aparecem os primeiros traços de comportamento
dirigido para um alvo, isto é, a atividade,
presumivelmente associada ao processo psíquico,
que parece se estabelecer segundo reflexos
condicionados (Spitz, 1996, p. 35).
Por volta da 2a semana de vida,
verifica-se um aprendizado relacionado à
sensibilidade proprioceptiva, desencadeando
reações de equilíbrio e comportamentos
cotidianos condicionados, como virar a cabeça
para mamar ao ser colocado na posição habitual
para amamentação. Ao 2o mês, porém,
apesar da evolução desta percepção, os estímulos
só são percebidos quando a criança sente
necessidade deles, ou seja, o bebê reage somente
a estímulos que estejam de acordo com suas
percepções interoceptivas, baseando sua
interação com o mundo na tensão gerada pelas
suas pulsões. Assim, para que o bebê volte sua
atenção a um estímulo, é necessário
primeiramente que haja uma reação proprioceptiva
ou interoceptiva, fazendo com que o bebê sinta
necessidade deste, e, em segundo lugar, que o
estímulo externo apresentado seja associado com
a satisfação de sua necessidade. No 3o
mês, o bebê já reage a rostos humanos, talvez
por estes estarem associados a satisfação de
suas pulsões (prazer ou suspensão do desprazer).
4
Uma vez não saciado, o bebê é envolvido pela
sensação de desprazer (manifestada, por exemplo,
pelo choro), e não consegue perceber a presença
do objeto de satisfação de sua necessidade, pois
há uma tensão que não permite com que o estímulo
seja percebido, que ocorre quando o bebê procura
descarregar o desprazer (princípio do nirvana).
Assim, para que a criança consiga perceber o
estímulo, a descarga de desprazer deve cessar,
através da intervenção externa. Só então a
percepção volta a atuar, e a criança pode tomar
conhecimento do objeto de satisfação. 4
Assim, a relação materno-infantil produz um
diálogo que constitui um mundo exclusivo ao
bebê, com uma dinâmica e um clima emocional
específico, o qual é o "... fator mais
importante para tornar a criança capaz de
construir gradualmente uma imagem coerente de
seu mundo" (Spitz, 1996, p. 32), sendo
justamente "este ciclo de ação-reação-ação que
torna o bebê capaz de transformar os estímulos
sem significado em signos significativos"
(Spitz, 1996, p. 33).
Analisando-se, todavia, essa relação, observa-se
que a estrutura psíquica da mãe é muito
diferente da estrutura da criança, fazendo com
que a relação ocorra de forma assimétrica, com
contribuições desiguais para o relacionamento.
4 Exemplos dessas diferenças são
mostrados no Quadro 1.
Quadro 1. Diferenças Psíquicas na Relação
Materno-Infantil. 4
|
Função
|
Mãe
|
Criança
|
|
Estrutura da Personalidade
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Organizada - Iniciativas específicas para
interação no relacionamento.
|
Não há iniciativa ou intercâmbio psíquico
(somente fisiológico).
|
|
Meio Externo
|
Percepção constituída de fatores diversos e
numerosos, formando campos de força
mutáveis, que influenciam sobre seus
comportamentos.
|
Meio constituído exclusivamente pela mãe ou
substituta que satisfaz suas necessidades,
mesmo quando o RN a percebe como parte de
sua totalidade.
|
Diante das características apresentadas,
acredita-se que o Terapeuta Ocupacional deve
objetivar um trabalho dirigido à mãe e ao meio
que a rodeia, o qual influencia em seus
comportamentos, em prol do bem estar e do
desenvolvimento saudável da criança e de suas
relações sociais.
Para isso, portanto, é necessário que se conheça
os diversos tipos de comportamento materno que
podem influenciar negativamente no
desenvolvimento das relações infantis e
interação da criança com o meio externo,
permitindo ao Terapeuta Ocupacional investigar o
padrão da dinâmica e do mecanismo de
relacionamento entre mãe e filho, e intervir
adequadamente, caso necessário.
2. TIPOS DE COMPORTAMENTO MATERNO E SUAS
CONSEQÜÊNCIAS.
Na relação mãe-filho, a mãe é o parceiro
ativo e dominante. A criança, pelo menos no
início, é a receptora passiva (Spitz, 1996,
p. 153).
Para que o bebê possa desenvolver-se
psiquicamente de forma saudável, ele precisa ter
uma relação suficientemente boa com a mãe, que
deve voltar sua atenção e preocupação à criança,
sem entretanto apresentar ressentimentos ou
sentimentos negativos em relação a ela. A mãe
precisa adaptar ativamente a criança ao
ambiente, de forma gradual, conforme suas
necessidades, modificando seu comportamento de
acordo com o crescimento e a maturação da
criança, naturalmente. 5
É a personalidade e o comportamento da mãe que
vai levar a criança a se desenvolver normalmente
ou não. Assim, alterações na personalidade
materna poderão ter repercussões psíquicas
significativas na criança, levando-a a uma série
de distúrbios, os quais são fundamentalmente
derivados de relações insatisfatórias entre mãe
e filho, sejam estas inadequadas (alterações
qualitativas nas relações) ou insuficientes
(alterações quantitativas). 4
No caso das relações inadequadas, o quadro
clínico apresentado pela criança é conseqüente
do tipo de comportamento da mãe aliado a fatores
congênitos, e irá depender da fase de
desenvolvimento do ego e da libido da criança no
momento do estabelecimento da relação
prejudicial. 4
Os principais padrões patológicos de
comportamento materno são: 4
Rejeição Primária Manifesta.
Pode ocorrer diante da rejeição da gravidez, e
consequentemente da criança, caracterizando uma
rejeição da maternidade de um modo geral, cuja
origem está na história individual da mãe, como
nas relações com seu próprio pai, com o pai da
criança, repercussões psíquicas da ansiedade da
castração e da maneira pela qual resolveu ou não
seus conflitos edipianos. 4
Pode ser detectada a partir da observação de
alguns sintomas maternos, como queixas de "falta
de leite", tensão na presença da criança, falta
de intimidade com ela, ou queixas dolorosas.
4
A criança pode apresentar quadros como dispnéia,
palidez extrema, diminuição da sensibilidade, ou
até mesmo coma, sendo que, muitas vezes, tanto a
mãe como a criança precisam receber intervenção
externa, como aplicação de condutas médicas e
orientações quanto a amamentação e cuidados com
o bebê, por exemplo. Quanto tratada a tempo, a
rejeição pode provocar seqüelas psicossomáticas
muito pequenas. 4
Superpermissividade Ansiosa Primária.
Pode ser detectada a partir de uma solicitude
exagerada da mãe quanto a alimentação da
criança, onde, diante de qualquer manifestação
de desprazer, a mãe tende a alimentá-la. É
frequente em crianças cuidadas por suas próprias
mães e familiares, senso rara em crianças que
crescem em creches ou longe da família, e pode
resultar da tentativa da mãe compensar uma
hostilidade inconsciente. 4
Como conseqüência, a superpermissividade materna
apresenta a chamada "cólica dos três meses",
onde a partir da 3a semana de vida a
criança pode apresentar sintomas de cólica e
choro, que cessam temporariamente após a
alimentação, e retornam posteriormente,
geralmente toda tarde, durando até o 3o
mês de vida, quando passam. A cólica dos três
meses é um fenômeno fisiológico originado de
aspectos psicológicos expressos em
comportamentos que a desencadeiam. 4
O mecanismo pelo qual essa sintomatologia
ocorre, consiste na superposição de fatores
genéticos, que tendem a provocar um aumento no
número de comportamentos de desprazer da
criança, e ambientais, onde a amamentação
excessiva faz com que o aparelho digestivo
aumente sua atividade, e os movimentos
peristálticos fiquem mais rápidos. Esta
sobrecarga aumenta a tensão da criança,
levando-a a um comportamento de desprazer, e
constituindo um círculo composto pela descarga
da tensão e pelo excesso de alimentação. 4
A amamentação satisfaz a criança por possuir
duas funções essenciais: a alimentação e a
descarga de tensão através da atividade oral
(fundamental principalmente nas primeiras
semanas), levando a diminuição da ansiedade
tanto da mãe como da criança. 4
Ao 3o mês, entretanto, as mães já
tendem a reconhecer e interpretar melhor as
solicitações da criança, ou já não sentem mais
tanta necessidade de oferecer alimentos em todo
comportamento sugestivo de desprazer, assim como
a criança já desenvolveu mecanismos alternativos
para descarregar a tensão, como movimentos ou
interações sociais, canalizando suas energias a
outras atividades. 4
Intervenções simples consistem em oferecer a
chupeta à criança, através da qual ela deve
descarregar a tensão, sem entretanto ingerir o
excesso de alimento que provoca as cólicas.
Outra alternativa é segurar e embalar a criança,
o que proporciona estimulação proprioceptiva
através do movimento, do contato corporal e da
sensibilidade térmica, levando também ao alívio
da tensão. 4
Assim, deve-se ter cuidado com a amamentação sob
livre demanda, que precisa ser orientada com
cautela, e por profissionais que compreendam
tanto os mecanismos físicos como psíquicos que
envolvem a mãe e a criança, a fim de que a
primeira não a deturpe em prol do alívio de seus
conflitos psicológicos. 4
Hostilidade Disfarçada em Ansiedade.
Em alguns casos, pode ocorrer uma ansiedade
materna em relação ao filho, devido a uma
hostilidade reprimida. Como principais sinais
maternos, pode-se citar a pouca concentração da
mãe em relação aos cuidados com a criança, a
qual voltando sua atenção a outras coisas
simultaneamente (como conversas paralelas por
exemplo), manifestando uma rejeição inconsciente
ao toque à criança, preocupação excessiva em não
machucar o bebê (fragilidade e vulnerabilidade),
personalidade infantil, preocupação exagerada e
exposição da criança a riscos desnecessários
(por exemplo, vestindo a criança demasiadamente
para que ela não fique com frio, a mãe pode
acabar sufocando-a). 4
A dermatite atópica é a principal conseqüência
da hostilidade materna disfarçada em ansiedade,
constituindo-se numa doença de pele que tem
início na segunda metade do primeiro ano de
vida, manifestada principalmente em áreas de
flexão (dobras da pele), podendo apresentar
exudação e descamação, e tendendo a desaparecer
na primeira metade do segundo ano de vida.
4
Os fatores que a determinam são a predisposição
genética (vulnerabilidade cutânea, com aumento
da sensibilidade ao toque) e influências do
ambiente (retardo no desenvolvimento afetivo por
um distúrbio nas relações objetais). Observa-se
também que estas crianças geralmente não passam
pela ansiedade dos 8 meses (ansiedade indicativa
do desenvolvimento das relações objetais, onde a
criança aprende a diferenciar o conhecido do
desconhecido). A criança frequentemente
desenvolve atraso na aprendizagem (imitação e
memória) e nas relações sociais. 4
Oscilação entre Mimo e Hostilidade.
Geralmente ocorre em mulheres extrovertidas e
positivas, porém de personalidade infantil, e
com facilidade para "explodir" conforme suas
emoções. Assim, o comportamento da mãe leva a
criança a estabelecer uma relação contraditória
dos objetos através de representações
conflitantes, resultando na libidinização do
corpo e de suas partes, e em um distúrbio na
formação do objeto, onde a criança pode acabar
tornando-se uma válvula de escape da mãe, sendo
vítima de explosões intensas de carinho ou de
hostilidade e raiva. 4
A conseqüência é que, na primeira infância, o
balanceio torna-se a principal atividade da
criança, substituindo a maioria das atividades
comuns a essa idade por essa atividade de
caráter auto-erótica, que constitui-se numa
relação pré-objetal narcisista. Pode-se também
observar posteriormente um retardo no
desenvolvimento da criança, de sua adaptação
social e da capacidade manipulatória (de objetos
e brinquedos por exemplo), resultando em
prejuízos nas relações com o meio e falta de
iniciativa. 4
Oscilação Cíclica de Humor.
Ocorre em mães que apresentam sintomas
clínicos de depressão, e oscilações de humor que
variam desde hostilidade e rejeição a
superproteção da criança. Um comportamento
hostil inconsciente está sempre presente, com
ambivalência de sentimentos. 4
O amor materno excessivo dura geralmente os dois
primeiros meses, sendo substituído por uma
hostilidade também temporária, de duração média
similar, constituindo um círculo oscilatório
entre amor e hostilidade. 4
Esses períodos, entretanto, são suficientes para
que a criança estabeleça uma relação com aquele
objeto, que repentinamente se transforma em seu
contrário, onde a criança forma novas relações
objetais, porém não consegue compensar a perda
do primeiro. 4
Como conseqüência, pode-se observar a
manipulação e ingestão fecal, que são atividades
que envolvem relações objetais concretas, e que
indica perpetuação da relação objetal já
conseguida, onde a criança tenta incorporar
oralmente o objeto perdido. A maioria das
crianças apresenta simultaneamente sinais
depressivos. 4
Hostilidade Consciente Compensada.
Consiste numa atitude extremamente bem
disfarçada, onde a criança constitui-se num meio
de satisfação narcisista e exibicionista, e não
num objeto de amor. A atitude porém é
consciente, e a mãe busca compensar sua culpa
com uma "doçura melosa". É principalmente
encontrada em indivíduos de nível intelectual
mais elevado. 4
A criança é geralmente rodeada por muitos
brinquedos, para compensar a culpa dos pais, e
apresentará uma predisposição à hiperatividade
por volta do segundo ano de vida, com
comportamento não muito sociável e destrutivo em
relação aos brinquedos, desinteressada pelo
contato humano, hostil e agressiva. 4
Quanto às relações insuficientes, estas
dividem-se em privação total ou
privação parcial do contato da criança com a
mãe, onde a criança se vê privada das relações
objetais (quando não há um substituto adequado
aceito pela criança), levando à carência de
provisões libidinais. 4
Para este trabalho, são válidas algumas
considerações sobre a privação parcial, apesar
desta dificilmente ser encontrada em um ambiente
hospitalar humanizado, como o Hospital de
Clínicas Gaspar Viana, acreditando-se serem as
privações totais ainda menos frequentes.
Nos casos de privação parcial, a personalidade
materna tem ainda menor influência sobre os
comportamentos infantis, devido ao pouco
convívio entre ambos. Nesses casos, geralmente a
criança desenvolve-se normalmente até o sexto
mês de vida, podendo demonstrar atitudes que
sugerem felicidade e boa sociabilidade. A partir
desse período, pode-se observar choro frequente,
seguido por retraimento, perda de peso, insônia,
inexpressividade facial, dificuldades para
alimentar-se, com vômitos, agitação ou estupor,
podendo-se caracterizar um quadro de depressão
anaclítica. 4
Todos esses sintomas ocorrem devido a privação
materna por um período superior a 5 meses, sem
aceitação de um substituto adequado pela
criança, ou seja, pela separação da criança de
seu objeto libidinal. Entretanto, isto só ocorre
caso a criança tenha tido uma boa relação com a
mãe antes da separação. Caso contrário, será
menos traumática a substituição do objeto
relacional da criança. 4
3. PROPOSTAS DE INTERVENÇÃO TERAPÊUTICA
OCUPACIONAL.
Diante do exposto, torna-se evidente a
importância de uma intervenção terapêutica
ocupacional na relação materno-infantil, a fim
de favorecer o estabelecimento de relações
adequadas entre mãe e filho, e consequentemente
o desenvolvimento psíquico saudável da criança.
Para que isso ocorra, considera-se primeiramente
necessária uma investigação acurada acerca dos
mecanismos que envolvem essa relação, a partir
da coleta de dados sobre os aspectos referentes
a mãe, como desenvolvimento psíquico, relações
sociais, e especificidades da personalidade,
seguida pela análise das condições que
determinaram a gestação, bem como seu curso e
suas características. Todos esses dados podem
ser obtidos através de anamnese formal,
investigação informal, observação, e coleta de
informações através do prontuário da cliente.
Devido ao curto período de hospitalização
pós-parto, o Terapeuta Ocupacional precisa ter
habilidade para avaliar e intervir junto à
relação materno-infantil em um, dois ou na
melhor das hipóteses três atendimentos, em um
ambiente que nem sempre favorece uma relação
terapêutica satisfatória, devido a falta de
privacidade e ocasionais intervenções da equipe
hospitalar para realização dos procedimentos
necessários.
O Terapeuta Ocupacional pode confrontar-se
também com uma variável importante: a presença
ou não da criança junto a mãe na enfermaria,
visto que em alguns casos, a criança necessita
de um acompanhamento médico intensivo, sendo
afastada da mãe, a qual, porém, segundo a
dinâmica do Hospital de Clínicas Gaspar Viana,
pode visitá-la a qualquer momento.
Diante disso, o Terapeuta Ocupacional precisa
analisar diversos aspectos no momento da
avaliação e intervenção terapêutica, que, na
maioria das vezes, precisam ocorrer
simultaneamente. A partir do momento em que o
Terapeuta Ocupacional identifica o tipo de
relação estabelecida entre a mãe e a criança,
ele pode traçar estratégias que busquem
favorecê-la ou torná-la mais adequada,
utilizando atividades como recursos que
facilitem este processo.
Moulard (1998) cita como principais conceitos e
objetivos gerais de qualquer profissional que
trabalhe com a saúde psíquica do ser humano, os
seguintes itens:
-
Concepção deste como pessoa que precisa ter
consciência de seu corpo, sentimentos e do
meio ambiente.
-
Reconhecimento de que essa pessoa tem
condições de assumir suas próprias
experiências, sem projetá-las sobre as demais.
-
Ajudá-lo a tomar consciência de suas
necessidades, e buscá-las sem prejudicar aos
outros.
-
Orientá-lo para que estabeleça um contato
pleno e menos defensivo com as pessoas, de
modo que possa valorizar seus aspectos
individuais.
-
Buscar conscientizá-lo de que pode usufruir
dos prazeres que a vida lhe oferece.
-
Incentivar o desenvolvimento da sensibilidade
em relação aos que o cercam, e lutar contra
situações potencialmente destrutivas.
-
"Desenvolver a responsabilidade de assumir
suas ações e as suas conseqüências" (p. 25).
-
Faze-lo sentir-se confortável diante das
situações que lhe são apresentadas.
Todos esses aspectos podem aplicar-se na
intervenção terapêutica junto a relação
materno-infantil, bem como ao tratamento de
outras alterações, sejam elas físicas, psíquicas
ou sociais.
De um modo geral, acredita-se que os objetivos
terapêuticos ocupacionais junto ao favorecimento
das relações materno-infantis, apesar de
variáveis conforme as observações realizadas
durante a avaliação de cada caso, constituam-se
principalmente em:
-
Buscar a satisfação das necessidades psíquicas
da mãe e da criança de forma saudável.
-
Facilitar a compreensão dos comportamentos da
criança por parte da mãe.
-
Estimular a afetividade e intimidade entre a
mãe e a criança.
-
Favorecer a iniciativa materna em busca da
adaptação da criança às suas necessidades.
-
Buscar, juntamente com a mãe, estratégias para
adaptação da criança ao seu ambiente familiar
e social.
-
Orientar quanto ao manejo da criança durante
as atividades diárias.
-
Reduzir as influências externas sobre o
comportamento materno, orientando-a a não
permitir que fatores externos influenciem no
seu relacionamento com o bebê.
-
Orientar quanto a mudanças na dinâmica
familiar.
-
Favorecer a análise crítico-reflexiva da mãe
em relação aos seus comportamentos diante da
criança e suas influências no desenvolvimento
desta.
Especificamente diante de evidências sugestivas
de alterações comportamentais maternas,
sugere-se os seguintes objetivos,
ressaltando-se, porém, que estes podem
misturar-se, assim como os sintomas apresentados
pela mãe, devendo o Terapeuta Ocupacional
adequá-los a cada caso particular.
-
Rejeição Primária Manifesta.
-
Buscar a aceitação da maternidade e da
criança.
-
Favorecer as relações familiares e a resolução
de conflitos.
-
Facilitar a relação corporal entre mãe e
filho, proporcionando momentos agradáveis.
-
Orientar quanto a técnicas para amamentação e
cuidados com o bebê.
-
Superpermissividade Ansiosa Primária.
-
Incentivar a observação dos comportamentos da
criança e a compreensão de suas necessidades.
-
Orientar quanto a técnicas de massagem para
favorecer a descarga de tensão da criança
através da estimulação proprioceptiva.
-
Orientar cuidadosamente quanto a amamentação
sob livre demanda.
-
Reduzir a ansiedade materna.
-
Hostilidade Disfarçada em Ansiedade.
-
Incentivar a concentração diante dos cuidados
com a criança.
-
Estimular o contato corporal entre a mãe e o
bebê.
-
Demonstrar técnicas para manipulação da
criança de modo a não machucá-la.
-
Estimular o sentimento de maternidade e a
compreensão das necessidades da criança.
-
Oscilação entre Mimo e Hostilidade.
-
Proporcionar uma reflexão da mãe sobre seus
comportamentos diante do meio e da criança.
-
Incentivar a adoção de técnicas de
auto-controle (meditação e auto-análise de
comportamentos).
-
Oscilação Cíclica de Humor.
-
Buscar solidificar o vínculo entre mãe e
filho.
-
Desestimular comportamentos de superproteção.
-
Orientar a mãe a manter uma relação estável
com a criança.
-
Hostilidade Consciente Compensada.
-
Estimular uma relação particular entre a mãe e
a criança, sem interferências externas.
-
Incentivar a atenção e preocupação com as
necessidades físicas e psíquicas da criança.
-
Favorecer a afetividade e a interação entre
todos os membros da família.
-
Demonstrar a importância das relações sociais
para o desenvolvimento da criança.
-
Estimular a participação ativa da mãe durante
a hospitalização da criança.
-
Buscar, juntamente com a mãe, alternativas que
visem favorecer a dinâmica das relações
materno-infantil e familiar após a alta
hospitalar da mãe.
Para que os objetivos propostos sejam
alcançados, o Terapeuta Ocupacional conta com
uma poderosa ferramenta: a ocupação (atividade)
humana. É a partir da atividade que o Terapeuta
Ocupacional deve introduzir os conceitos e
reflexões que irão favorecer o relacionamento
materno-infantil.
A escolha dessa atividade, portanto, estará
diretamente ligada às características da mãe e
do relacionamento que esta tem com a criança,
devendo fazer parte de seu contexto
sócio-cultural e estar de acordo com os
objetivos terapêuticos determinados.
O Terapeuta Ocupacional conta com uma extensa
variedade de recursos em prol do alcance de seus
objetivos, dentre os quais pode-se citar, a
título de ilustração:
-
Treino de AVD com a mãe e a criança (higiene,
amamentação, proteção, etc.).
-
Orientação quanto a aplicação de técnicas de
massagem pela mãe na criança (como a técnica
de Shantalla por exemplo).
-
Técnicas de relaxamento que busquem reduzir a
ansiedade materna, e/ou estimular sentimentos
positivos referentes a maternidade.
-
Atividades artesanais destinadas à criança
(como a confecção de pulseiras, porta
retratos, álbuns, diários do bebê, etc.).
-
Atividades auto-expressivas (pintura, desenho,
colagem), visando tornar conscientes processos
psíquicos prejudiciais à relação
materno-infantil que possam ser trabalhados
através de atividades reais.
CONCLUSÃO.
Acredita-se que o Terapeuta Ocupacional é um
profissional extremamente indicado ao tratamento
de alterações nas relações materno-infantis,
sejam estas evidentes ou não, devendo fazer
parte da equipe hospitalar como profissional
ativo na busca da melhoria da qualidade de vida
e desenvolvimento saudável da mãe e da criança,
durante e após a hospitalização.
Apesar de considerar-se a fundamentação teórica
apresentada rica em termos de conteúdo, vale
ressaltar que faz-se necessário a todo
profissional que deseje atuar nessa área, um
aprofundamento maior acerca das intercorrências
que podem ser observadas no relacionamento
materno-infanti, sobretudo no que se refere aos
processos de privação, e principalmente sobre as
estratégias de intervenção terapêutica
ocupacional junto a este.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
-
BOCK, A. M. B. et al. Psicologias:
Uma Introdução ao Estudo da Psicologia. 11 ed.
São Paulo: Saraiva, 1998. 319p.
-
GESELL, A. A Criança do 0 aos 5 Anos. 5 ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1999. 392p.
-
MOULARD, G. V. Psicologia e Terapia
Ocupacional. Mato Grosso do Sul: Solivros,
1998. 110p.
-
SPITZ, R. A. O Primeiro Ano de Vida. 7 ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1996. 279p.
-
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade.
Rio de Janeiro: Imago, 1975. 203p.
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