Texto gentilmente cedido pelos autores identificados em rodapé.
 


 

        

 

 

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 Trabalho corporal, música, teatro e dança em Terapia Ocupacional

 

         

As práticas  clínicas, hoje, participam directa ou indirectamente da composição dos territórios subjectivos. Suas teorias são diferentes tentativas de cartografar as paisagens da subjectividade e seus procedimentos, diferentes modos de interferir em seus relevos.

Suely Rolnik

 

Sabe-se que, ainda hoje, muitos estudos têm priorizado aspectos relacionados apenas à funcionalidade do sujeito. Nestas abordagens, os  aspectos orgânicos e físicos são enfatizados, em detrimento da atenção às subjectividades, à existência de um mundo interno, do qual emergem as emoções e sentimentos que possibilitam a compreensão do sujeito, a partir de seu quotidiano e dos diferentes âmbitos em que ele actua e se relaciona socialmente: trabalho, lazer, moradia, entre outros.

De acordo com Saraceno (1999), estas  propostas orientadas essencialmente por um olhar médico pouco informam sobre as necessidades, desejos e possibilidades do sujeito.

Já os estudos da subjectividade – que reflectem sobre os modos de pensar, agir e sentir; enfim, sobre  os modos de viver e existir do homem – têm constituído um campo privilegiado para pesquisas que buscam atender à complexidade do sujeito. Contribuições como as ideias do psicanalista Félix Guattari, do filósofo Gilles Deleuze e da psicanalista Suely Rolnik,   entre outros, são importantes  fontes de inspiração para muitos terapeutas ocupacionais que procuram, através da compreensão dos processos de subjectivação, pensar estratégias de intervenção, seus sentidos e objectivos de forma mais ampla e contextualizada.

Ao incorporar esses elementos, a  Terapia Ocupacional (T.O.) assume como objecto os diferentes modos de existir do sujeito: suas formas de organização, actividades, o estabelecimento de vínculos e pontes com a  família, com a comunidade e outras dimensões da  rede social.

É esta a perspectiva de muitos terapeutas que buscam reorganizar suas práticas de autuação. Para tanto, além dos referenciais provenientes da área, são mobilizados também – e principalmente – outros campos do conhecimento como: a antropologia, psicologia, filosofia, educação, as artes, entre outras. Vale dizer que, neste contexto, as artes são compreendidas como meios, ferramentas que possibilitam o estabelecimento de vínculos e, ao mesmo tempo, permitem a “materialização” dos conteúdos emocionais, sentimentos e desejos e a efectivação de processos de expressão, conhecimento de si, do outro e do mundo.

Considerando este quadro, há  alguns anos foram introduzidas, nos cursos de Terapia Ocupacional, disciplinas  que abordam basicamente o desenvolvimento da expressão, a criatividade e a comunicação. Os cursos incorporam também as terapias na água, a Equoterapia e outros recursos alternativos que, por sua especificidade, não serão abordados neste artigo.

As actividades expressivas, como é o caso da dança, dos trabalhos corporais, da música e do teatro, têm sido  cada vez mais utilizadas em T.O., seja no uso directo dos métodos compondo ou não com outros recursos – a pintura, o desenho, a argila, entre outros – seja para a compreensão do sujeito a partir de um olhar que privilegia o corpo e suas potencialidades.

Neste contexto, diferentes vivências no campo das artes  podem contribuir para que o sujeito se perceba como tal, identifique seus diferentes  “modos de funcionamento” para, em seguida,  repensá-los e  (re)construi-los. O corpo constitui, assim, um indicador fundamental para o conhecimento das  histórias do sujeito, seus modos de funcionar, sua vida quotidiana, suas dores, tensões, anseios, etc.

Além das actividades expressivas e das artes, hoje a T. O. conta também com  contribuições muito significativas  dos estudos sobre Reabilitação Psicossocial, que influenciam tanto os modos de pensar as actividades, como a atribuição de sentidos às possibilidades e ressonâncias em seu uso. Não basta, como nos diz Saraceno (idem), realizarmos actividades que  transformem  o usuário em pintor, bailarino, escultor etc. Faz-se necessário que esse exercício promova também a construção de um sentimento de pertencimento em relação às comunidades, que possa culminar, por exemplo,  em alterações nos modos de conviver com a  família ou  em maior circulação na rede  social, ao fazer parte de um colectivo. Essas estratégias de integração de todos os membros de uma sociedade, independente de raça, habilidades, condições económicas etc. constituem hoje o objectivo  fundamental das práticas na área de saúde.

Além disto, essas formas de inserção podem sustentar os processos de subjectivação, numa tentativa permanente de construir pontes e lugares que permitam ao sujeito se constituir e interferir na sua comunidade.

Todos estes aspectos nos levam a reflectir sobre as  “novas” abordagens  e   sobre o papel das estratégias actualmente mobilizadas em T.O.

Penso que abrir novos territórios de pesquisa no campo das artes – não somente para os usuários, mas também no processo de formação académica do futuro profissional – pode permitir  a experimentação de diversos recursos  expressivos, de comunicação e criação, por exemplo, ao visitar um museu, assistir e participar de um espectáculo de música, canto ou dança etc. Também as conversas e trocas que acontecem nos grupos, prática bastante comum, tendem a potencializar as descobertas, contribuindo para  democratizar as informações.

Por isso, quando discuto a ampliação ou a utilização mais intensa destes recursos em T. O., considero fundamental garantir  a reflexão sobre estes aspectos também na  formação universitária. Acredito na importância da sensibilização do aluno, por meio das disciplinas vivenciais, para que também  ele possa resgatar sua história, recuperar e reflectir sobre os seus significados.

Uma das possibilidades de experimentação dessa proposta, do ponto de vista da formação académica, são as actividades realizadas fora dos laboratórios de terapia ocupacional. Circular mais intensamente pela cidade, trabalhar de forma efectiva com a comunidade – por exemplo ao  programar, realizar e reflectir sobre uma oficina com mulheres da 3ª  idade no Sesc  Ipiranga –  são oportunidades de “transbordar “os espaços e setting pré estabelecidos, enriquecer as vivências, ampliar a visão e conhecer melhor a comunidade e a população que o futuro profissional irá atender.

 Outro aspecto relevante, diz respeito aos processos iniciados após um acontecimento traumático, seja o nascimento de um bebé,  que vai exigir uma atenção especial, ou os traumas que acontecem ao longo da vida. Neste sentido, os   sujeitos e as famílias que vivem acontecimentos da ordem do inevitável, particularmente nos casos traumáticos, buscam os mais diversos recursos na tentativa de elaborar e lidar com as novas realidades que se apresentam. Parece-me que, também em tais situações, as artes podem ter um lugar fundamental, pois constituem veículos facilitadores  para o contacto com as  realidades. Ao mesmo tempo, possibilitam a emergência de actos criativos, expressivos, mediadores da comunicação entre as pessoas, da (re)descoberta de habilidades  e  de  novos jeitos de viver; ou seja, de  outras subjectividades.

 Assim, as danças criadas e compartilhadas, as músicas tocadas e/ou cantadas, as cenas representadas em forma de teatro ou uma actividade externa, podem ser experiências e oportunidades para a construção de outros lugares nos processos de reabilitação.

É preciso considerar também  o desafio de articular os trabalhos mais centrados na funcionalidade do corpo do sujeito – tal como ocorre na área física  – com a abordagem que inclui a dança, a música, o teatro, tendo em vista o momento da busca, do desejo, do prazer, da improvisação para compreender e construir recursos de apoio.

O que significaria, então, habilitar os sujeitos que acompanhamos, se não pensá-los o mais amplamente possível para com eles abrir e criar espaços de circulação no seu próprio corpo  e na rede social?

Não a título de resposta, mas como elemento de contribuição para esse desafio,  consideremos a situação de S., que me foi encaminhada por uma outra terapeuta ocupacional que orienta seu reestabelecimento de movimentos e funções, após sequela por derrame.

S. é actriz e vivência uma série de exercícios em sua actuação profissional. Depois de algum tempo de terapia, percebeu-se a necessidade e o desejo de S. pela realização de actividades expressivas para ampliar seu campo de acção e experimentar-se dentro de uma outra dinâmica. Com estes objectivos, temos explorado a realização de actividades lúdicas voltadas para a criatividade, a improvisação, o jogo corporal. Trabalhamos a funcionalidade e o equilíbrio,  por meio da música, da dança, da consciência corporal, do relaxamento. A proposta é realizar movimentos, sem a preocupação de cumprir uma tarefa tal como: comer, vestir-se, amarrar um sapato etc. O gesto criado tem sentido e significado e emerge dentro de um contexto. Tudo poderá reverter para as acções diárias,  porém, no momento da actividade, o foco está no prazer e no gosto pela experimentação.

Os depoimentos e observações de S., ao longo dos encontros, revelam sua satisfação e envolvimento com as propostas. S. continua com o acompanhamento da outra terapeuta e, ao estabelecer relações entre os dois trabalhos, nos fornece índices que  evidenciam a pertinência da articulação de propostas  tanto para ela, como para as profissionais envolvidas no processo.

Observando este exemplo pode-se perceber o forte impacto que as novas abordagens produzem sobre as prática em T.O..

Já no que se refere à Reabilitação Psicossocial, merecem destaque as ideias de Saraceno (op. cit.) que provocam nosso olhar, orientando-nos para o quotidiano, para as questões da cidadania  e outros aspectos que envolvem o ser humano. Ao adoptar esta óptica, ficamos mais atentos e sensíveis às diversas formas de produção cultural e podemos privilegiar as expressões artísticas.

Um exemplo disso pode ser observado na  disciplina “Recursos Terapêuticos Alternativos”, que leva  o aluno a pesquisar diversos eventos culturais – indo ao cinema, teatro e shows. Nesta pesquisa o foco é a observação e o estudo dos limites e das possibilidades das populações que atendemos transitarem nos diversos espaços sociais; para tanto, os alunos conversam com as profissionais que trabalham nos locais visitados, buscando verificar o nível de conhecimento e preparação para o atendimento de pessoas em processo de reabilitação. Observam também o espaço físico e barreiras arquitectónicas. Tais actividades permitem ao aluno pensar e visualizar a reabilitação em espaços sociais efectivos e não apenas nos espaços fechados das instituições “clínicas”.

O social pode, assim, ao orientar práticas terapêuticas, constituir-se como pano de fundo para nossas actuações, seja na clínica, seja na formação académica.

Acreditamos também que as artes proporcionam ao sujeito produções passíveis de alguma visibilidade; produções que, quando destacadas como objecto de reflexão, podem constituir elemento de construção, articulação e transformação do quotidiano.

L., por exemplo, uma adolescente que me procurou sob orientação da mãe, preocupada com o fato da filha achar-se muito magra (talvez com a fantasia de tornar-se anoréxica ), começa a realizar um trabalho corporal –  dança e teatro. Nosso objectivo era propiciar a L. um processo de conhecimento de si e do seu corpo, por meio de diversas vivências em nossos laboratórios: desenhar, tocar e principalmente sentir o próprio corpo.

Como parte da programação foi prevista uma ida  ao museu; a observação de obras de arte, mais especificamente corpos pintados em diferentes épocas ao longo da história, levou L. a reflectir sobre diferentes modelos, questionar e repensar  sobre a imagem que tem de seu próprio corpo. Ou seja, a produção cultural serviu como elemento disparador e provocador de questionamento, auxiliando no processo terapêutico.

Dessa experiência, vale ressaltar ainda o carácter ao mesmo tempo cultural e político dos processos de subjectivação, que se transformam ao longo do tempo e variam de acordo com as sociedades. Por exemplo, na Idade Média, o corpo era, de certa forma, o mesmo corpo de hoje; mas também outro, pois inviolável. Como nos diz Sant’Anna 1995b, referindo-se aos cirurgiões daquele período histórico: “numa época em que a verdade do mundo é encontrada nos livros, aqueles que enfrentam os limites dos corpos, cortando  carnes e ossos, infringem o equilíbrio entre o homem e o cosmo, necessário à organização social” (p.244). Por isso, continua a autora,”(...) excepto na Itália e em alguns casos na Alemanha, a profissão do cirurgião é identificada com a do carrasco”. Hoje, ao contrário, o  corpo é permanentemente manipulado seja na busca da boa forma – através de uma imensa gama de métodos –, seja nos cuidados com a pele para retardar os processos de envelhecimento e particularmente através de avanços tecnológicos que produzem um corpo–máquina, que suporta inclusive as substituições de órgãos .

Assim, é preciso, compreender o curso da história, seus avanços, vantagens e também seus riscos,  pois também nós, terapeutas, podemos ditar modelos e adoptar parâmetros nem sempre adequados para que o sujeito viva bem ou melhore a sua vida, seu quotidiano como objectivamos.

Para compreender melhor esta questão, pode-se analisar a impressionante expansão da comunicação – particularmente através do computador – e a consequente imposição de novos referenciais para analisar o homem e suas performances. O sujeito que não consegue  receber e emitir informação com rapidez e precisão perde espaço na cena social, fica fora do circuito. Ora, na maioria dos casos, as pessoas que acompanhamos vivem neste descompasso que só produz sofrimento e dor. Mas nem é preciso ir tão longe, basta pensar em nós mesmos que, sob pressão, ficamos tensos e produzimos doenças, as mais diversas.

Como pensar, então, as abordagens corporais de forma crítica? Como avaliar estes recursos a partir de um olhar histórico sobre o corpo, situando nossas práticas mais claramente no momento em que são produzidas? Como compreender os pressupostos que orientam essas práticas, suas possibilidades na T. O. e também os seus riscos, uma vez que podemos nos emaranhar e nos prender a modelos como tantos já construídos ao longo da história?

Este artigo pretendeu colocar em pauta essas questões, ao expor diferentes ópticas, aprofundar alguns temas e propor relações entre teorias e práticas que podem contribuir para a atribuição de sentidos às nossas acções terapêuticas.

Bibliografia:

Benetton, M. J. Terapia Ocupacional e reabilitação psicossocial: uma relação possível? Rev. de Terapia Ocupacional da USP  (São Paulo),   v.4/7, p.1-63, 1993/6.

Costa, A. L.; Canguçu, D. F.; Castro, E.D.; Lima, L.J.; Lima, E.; Inforsato, E.  O programa permanente de composições artísticas e terapia ocupacional (Pacto): Uma proposta de atenção Interface Arte-Saúde. São Paulo : Faculdade de Medicina da USP, s/d. 16 p. (Mimeogr.). 

Liberman, F. O corpo como produção de subjetividade. Cadernos de Subjetividade  PUC-SP  (São Paulo), v.5, nº 2 , 12 p., 1997.

Motta, A.A. A ponte de madeira: A possibilidade estruturante da atividade profissional na clínica da psicose. São Paulo : Casa do Psicólogo Editora, 1997.

Sant’Anna, D. (Org.). Políticas do corpo. São Paulo : Estação Liberdade, 1995a.

 Sant’Anna, D. Corpo e História. Cadernos de Subjetividade PUC–SP (São Paulo),  v.3, nº 2, 23 p. , 1995b.

 Saraceno, B: Libertando identidades: da reabilitação psicossocial à cidadania possível. Belo Horizonte, Rio de Janeiro : Te Corá Editora, 1999.

Vieira, M. C.; Vicentin, M. C.; Fernandes, M. I. (Org.). Tecendo a rede: Trajetórias da saúde mental em São Paulo. São Paulo : Cabral Editora Universitária , 1999.

Flávia Liberman

estudiofla@uol.com.br

 

 

 


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