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Resumo:
O artigo trata da localização da profissão Terapia
Ocupacional e seu espaço dentro do campo científico. A
autora parte da constatada tecnicidade existente na
Terapia Ocupacional para propor o desenvolvimento de um
saber através dos procedimentos das ciências humanas. Em
outras palavras, parte da clínica em terapia
ocupacional, ou seja, do empírico, em busca de
enunciados teóricos possíveis de serem avaliados e
generalizados.
Este artigo é baseado na argumentação utilizada durante
a defesa da tese de doutorado A Terapia Ocupacional
como Instrumento nas Ações de Saúde Mental (1994).
Aqui, os argumentos dão os primeiros passos no caminho
da Terapia Ocupacional em direção ao campo das ciências
empíricas.
A tese
caracteriza-se, fundamentalmente, pela tentativa de
fazer com que a Terapia Ocupacional seja colocada como
objeto de estudo no seu próprio campo, e também pelo seu
próprio caráter de intervenção.
Como
objeto de estudo e assim apresentada na área de Saúde, a
Terapia Ocupacional é definida e defendida, na tese,
através da importância que a atividade clínica tem para
atingir seus fins de ensino, de pesquisa e os
propriamente clínicos.
Através de
tratamento cuidadoso, longitudinal tanto de casos
clínicos como de levantamento bibliográfico, a tese
levanta argumentos e alimenta o debate entre a teoria e
a prática clínica no campo da Terapia Ocupacional. Trata
de promover o cruzamento das qualidades clínicas,
empiricamente observadas ao longo de 25 anos de
exercício profissional, com as estruturas teóricas
referendas na própria literatura da Terapia Ocupacional.
Esta forma
de proceder foi o alvo maior das críticas da banca
examinadora, constituída na sua totalidade por
psiquiatras. Por não termos no Brasil uma pós-graduação
em Terapia Ocupacional estrito-senso, os profissionais e
os programas de pós-graduação que nos aceitam para
formação têm, no geral, demonstrado dificuldades para
compreender (e mais ainda aceitar) nossa problemática na
formulação de enunciados.
É consenso
na profissão que, por um lado, a clínica é forte, com
resultados demonstráveis. Por outro lado, observa-se a
fragilidade da base teórica para o estabelecimento de
leis que orientem o entendimento e o conhecimento dessa
produção clínica.
A nossa
literatura mostra como tendência temática algumas
características que permitem a detecção de argumentos e
de problemas setorizados na transmissão do saber
teórico, clínico e na construção de desenhos para
pesquisas. Nos estudos clínicos tanto de atendimentos
individuais quanto de grupos encontra-se com bastante
freqüência maneiras de apresentar, mais do que o estudo
de técnicas, a Terapia Ocupacional na sua inserção em
instituições.
Provavelmente o longo e difícil caminho para
conseguirmos um simples enunciado teórico da Terapia
Ocupacional tem nos levado a realizar várias tentativas
de associações teóricas. Essas associações têm ocorrido
muito no sentido do empréstimo de elementos teóricos, de
métodos e técnicas, de diferentes áreas das ciências,
para explicar, justificar e criticar fatos e situações
da Terapia Ocupacional.
Essas
produções "sócio-empíricas" criam conexões e injunções
muitas vezes estéreis, pois não resultam na criação de
um objeto novo, de um objeto próprio da Terapia
Ocupacional. Estudos recentes são até felizes em mapear
ou esclarecer questões correlatas ligadas a nossa
problemática, mas nunca deram respostas eficientes a
problemas próprios da Terapia Ocupacional e da sua
transmissão.
Para
buscarmos um objeto próprio, é preciso pelo menos um
corte metodológico, no sentido da invenção de categorias
de análise naquilo que a Terapia Ocupacional tem por
excelência: a composição e a organização instrumental de
sua clínica. Produções reflexivas do conhecimento após o
primeiro (know how) e o segundo nível (know about) visam
atingir o terceiro nível: ao saber fazer, ao ter
conhecimento de alguma coisa acerca de, é preciso também
buscar espaços para modificar e ampliar ao máximo o
"saber fazer acerca de".
Talvez
seja realmente esta a forma de saber mais importante a
ser desenvolvida na Terapia Ocupacional de hoje. Vejamos
como uma desvalorizada atividade manual, o crochê, pode
ser modificada através desse mecanismo e desse
raciocínio:
-- Sei
fazer crochê, sei acerca do potencial do crochê nas suas
várias formas da aplicação social. Na Terapia
Ocupacional reúnem-se esses dois saberes para compor um
terceiro, que situa sua aplicabilidade no contexto X ou
Y terapêutico.
Como o
crochê, esses três níveis de conhecimento, ao serem
traçados, formam uma malha comparável à teia dinâmica
aportada pela filosofia bootstrap, de Capra
(1982): "A filosofia bootstrap não só abandona a
idéia de constituintes fundamentais de matéria como
também não aceita quaisquer espécies de entidades
fundamentais - nenhuma constante, lei ou equação
fundamental. O universo é visto como uma teia dinâmica
de eventos interrelacionados. Nenhuma das propriedades
de qualquer parte dessa teia é fundamental; todas elas
decorrem das propriedades das outras partes do todo, e a
coerência total de suas inter-relações determina a
estrutura da teia.
Nossa teia
dinâmica começa a ser construída, num contexto X ou Y da
clínica de terapia ocupacional, quando alguém começa a
fazer uma atividade. Essa experiência, quando
multiplicada, pode dar ao observador a preciosa
oportunidade de ligar fatos, no ofício de
conhecedor-diagnosticador, Carlo Ginzburg (1990) reprime
a prática com regras preestabelecidas e propõe o jogo
com elementos imponderáveis: faro, golpe de vista,
intuição. Em outra forma de ousadia, talvez mais
ordenada, Gilles-Gaston Granger (1994) afirma: "O
conhecimento científico daquilo que depende da
experiência consiste sempre em construir esquemas ou
modelos abstratos dessa experiência e em explorar, por
meio da lógica e da matemática , as relações entre os
elementos abstratos desses modelos para finalmente
deduzir daí propriedades que correspondam, com precisão
suficiente, às propriedades empíricas diretamente
observáveis."
Os
objetos das ciências empíricas, portanto são
rigorosamente abstrações, mas abstrações susceptíveis de
serem veiculadas segundo procedimentos regulados por
constatações de nossos sentimentos. Se um dia a Terapia
Ocupacional for uma ciência, na certa ela será uma
ciência empírica. Podemos afirmar com segurança que hoje
em dia essa aproximação ainda é um abuso científico. Em
A Terapia Ocupacional como instrumento nas Ações de
Saúde Mental, entretanto, há abstrações susceptíveis
de serem vinculadas segundo procedimentos regulados por
constatações de sentimentos. Elas estão enunciadas de
forma a construir conhecimento, ou seja, um conhecimento
que formula os enunciados sobre a técnica terapia
ocupacional, isto é, da intervenção clínica, deve ser
instrumentalizado de forma metódica e, em conseqüência,
como uma possibilidade de viabilizar construções
teóricas.
É preciso
localizar, agora, de que técnica esta se tratando. Há um
caráter original e relativamente autônomo na história
das técnicas. Ao longo da história, sua empiricidade não
era penetrada pelo saber científico. No sentido comum
eram conhecimentos derivados diretamente de experiências
práticas e não tirados de explicações teóricas. Além
disso, até poucos séculos atrás o saber técnico sempre
teve como forma de transmissão a via oral. No passado
recente, escritos esotéricos e outras formas impressas
receitavam e descreviam os procedimentos utilizados. Até
hoje as técnicas são transmitidas principalmente através
destes procedimentos.
No
Renascimento, corpos específicos de conhecimentos
técnicos ganharam relativa independência do campo de
conhecimentos científicos a partir da formação das
primeiras classes de engenheiros que, responsáveis pela
concepção, execução e direção de obras públicas,
construíram fortificações e aperfeiçoaram máquinas de
guerra.
Após
Taylor, constatou-se que havia uma hierarquia técnica
entre a tecnicidade do segundo grau (o executor) e a da
técnica que "oculta" o conhecimento científico. Esse
nível mais alto da hierarquia tende a unir o cientista e
o engenheiro. Em Terapia Ocupacional como Instrumento
nas Ações de Saúde Mental a profissão é definida
como tendo um caráter de método no sentido amplo desse
termo, que aplica de forma metódica técnicas específicas
denominadas também de terapia ocupacional.
A
definição operacional da Terapia Ocupacional é de uma
engenharia que "oculta" a descrição e a análise das
relações entre a experiência mais imediata e as
abstrações teóricas, procurando organizá-las de tal
forma a provocar a pesquisa do sentido e do alcance dos
procedimentos, e obviamente da validação desse
conhecimento.
O relato e
a análise dos procedimentos, na tese, fazem surgir
enunciados que podem buscar validação naqueles
existentes nas ciências empíricas. Para apresentar esses
enunciados usamos de um exemplo comparativo entre textos
de um autor reconhecido e outro da própria tese.
Enunciado:
"Sabemos que, para uma criança com menos de sete anos
(em média), o deslocamento de um bastão, relativamente a
outro, modifica o seu comprimento, e que em todo
indivisível não é equivalente à soma das partes que nele
podemos introduzir." Piaget (1990).
Enunciado:
"Alguns experimentos na clínica, entretanto, permite-me
concluir que a terapia ocupacional dinâmica pode ser
eficaz em algumas outras áreas clínicas ou sociais.
Pacientes com o comprometimento em áreas físicas, por
exemplo, são globalmente e melhor assistidos em terapia
ocupacional quando se inclui também a compreensão
dinâmica dos fenômenos psíquicos. Um exercício físico,
por exemplo, será valorizado a partir do momento em que
possamos pressupor que ele estará respondendo mais do
que a deficiência ou a uma parte fisicamente lesada."
Benetton (1994).
Esses
anunciados têm como primeiro sinal o caráter ainda pouco
generalizável dos resultados obtidos. Eles se utilizam
de conceitos aparentemente tomados da experiência
ordinária, sem grande elaboração específica. Porém,
ambos podem ser tratados estatisticamente. Piaget mesmo
jamais fez uso desse instrumento (talvez por falta de
tempo ou pelo fato de ter sido em outro tempo). Nós,
terapeutas ocupacionais, temos de criar e de viver esse
tempo!
Para dar
mais um passo em direção ao caminho das ciências,
teremos que ainda estar prevenidos para enfrentar novas
dificuldades.
Os
enunciados de conteúdo teórico de Freud sofreram
constantes ameaças, sendo tombados apenas como dados do
observador, ou seja, da arte de observar e de
interpretar fenômenos humanos. A Terapia Ocupacional,
com um sistema teórico frágil, não só sofreu ameaças
como teve seu desenvolvimento dificultado. Pouco temos
buscado ou nos prendemos a experiências, digamos,
cruciais, isto é, aquelas obtidas na preservação do
estudo do fato humano (por exemplo, o uso das atividades
na intervenção em saúde mental) e isto levou-nos a uma
doutrina epistemológica "holística" radical. A
conseqüência foi o abandono do núcleo (da lógica usual)
inerente a toda teoria. Moral da história: ou levamos em
conta todas as teorias ou nenhuma teoria. Não há meio
termo.
Hoje, é
preciso fazer da Terapia Ocupacional uma profissão em
busca de uma solidez fundamental para um conhecimento em
evolução. Firmemente plantados em seu empirismo inicial,
da tecnicidade, categoria baseada no ensino e na
execução de atividades, devemos usar e abusar de
instrumentos das ciências empíricas no que diz respeito
ao conhecimento científico dos fatos humanos para
análise, reflexão e composição teórica que tragam como
primeira conseqüência uma base mais sólida no pensar e
na profissão.
Podemos e
devemos partir da pura observação da ocorrência de fatos
localizados na relação triádica
paciente-terapeuta-atividades, compondo de início uma
armazenagem de informações que nos permita testar
hipóteses e resolver problemas.
Em
Terapia Ocupacional como Instrumento nas Ações de Saúde
Mental o maior problema é buscar formas para que
nossa produção sócio-empírica caminhe no sentido de
pensar a terapia ocupacional, definida da relação
paciente-terapeuta-atividade e capaz da produção da
interação social para uma população caracterizada como
"os excluídos da sociedade". Lá, tanto no resgate como
na criação de elementos teóricos, os enunciados procuram
manter a personalidade da Terapia Ocupacional.
Na
forma, esses enunciados buscam a estética,
imprescindível para uma profissão que alia a arte de
tratar à arte do fazer, inventariando diversos discursos
de personagens excluídos - terapeutas ocupacionais e
loucos.
Quanto
ao conteúdo, a partir da ética que envolve a clínica da
Terapia Ocupacional, busca-se resposta à proposta
winnicottiana na qual nossa profissão tem como objetivo
fazer com que o indivíduo se afaste de si mesmo. Para
mim, essa é a direção do futuro onde terapeutas
ocupacionais e pacientes abrem trilhas que lhes permitam
caminhar com segurança na direção do social.
Referências Bibliográficas:
BENETTON,
M.J. - Terapia Ocupacional como Instrumento nas Ações
de Saúde Menta, Tese de Doutorado em Saúde Mental.
Unicamp, Campinas, novembro de 1994, pág. 167.
CAPRA, F.
- Ponto de Mutação. Editora Cultrix, São Paulo,
1982, pág. 87.
GINZBURG,
C. - Mitos, Emblemas e Sinais. Companhia das
Letras, 1990, São Paulo.
GRANGER,
G. G. - A Ciência e as Ciências. Editora Unesp,
1994, São Paulo.
PIAGET, J.
- Epistemologia Genética: Assimilação e Conhecimento.
Editora Martins Fontes, 1990, São Paulo.
WINNICOTT,
C., SHEPHERD, R., DAVIS, M. - Explorações
Psicanalíticas de D.W.Winnicott. Artes Médicas,
1994, Porto Alegre.
[Artigo publicado na Revista do Centro de Estudos de
Terapia Ocupacional, v.1, n.1, p.5-7, junho/1995]
Endereço para correspondência:
Maria José Benetton,
Occupational Therapist, Doctor in Mental Health,
Coordinator at Centro de Estudos de Terapia Ocupacional
Rua Fradique Coutinho, 1945
São Paulo, SP
Brazil
05416-012
Email:
jobenetton@hydra.com.br
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