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Luzia Iara Pfeifer – Doutora em Educação
Docente do curso de terapia ocupacional da UEPA -
Universidade do Estado do Pará
RESUMO : Este trabalho tem como objectivo discutir a AVD
(actividade de vida diária) dentro dos metamodelos
reducionista e holístico, buscando compreender a
actuação do terapeuta ocupacional junto a criança com
atraso no desenvolvimento, preparando para um futuro
independente. Focalizando a habilidade de vestir
apresenta-se exemplos de como o terapeuta ocupacional
pode utilizar este recurso para desenvolver os conceitos
de esquema corporal e orientação espacial, além de
propiciar a aquisição do equilíbrio estático e a quebra
de padrões patológicos.
PALAVRAS – CHAVE : AVD
Terapia Ocupacional
Crianças com atraso no desenvolvimento
As actividades de vida diária (AVD) são as tarefas de
desempenho ocupacional que o indivíduo realiza
diariamente. Não se resume somente aos auto – cuidados
de vestir-se, alimentar-se, arrumar-se, tomar banho, e
pentear-se, mas engloba também as habilidades de usar
telefone, escrever, manipular livros, etc além da
capacidade de virar-se na cama, sentar-se, mover-se e
transferir-se de um lugar à outro (trombly, 1989).
A perspectiva filosófica que fundamenta a prática do
terapeuta ocupacional é que definirá sua actuacção,
escolha das actividades como recurso e objectivos
terapêuticos.
Pode-se destacar, segundo Reed (1984), dois metamodelos
: o reducionista e o holístico (apud hagedorn, 1999). No
quadro abaixo encontra-se o resumo destes metamodelos :
HOLÍSTICO / ORGÂNICO / FENOMENOLÓGICO
REDUCIONISTA / MECANICISTA
Vê a pessoa como um todo "maior que a soma de suas
partes"
Vê o indivíduo como divisível em componentes que podem
ser estudados separadamente
Tende a pensar nos sistemas como interactivos e
adaptativos
Tende a pensar em sistemas fechados e fixos
O controle é baseado em um indivíduo que tem livre –
arbítrio e pode tomar decisões conscientes e racionais
Determinista : o controle é externo ao indivíduo, ou tem
base involuntária
Orientado ao presente / futuro
Orientado ao passado / presente
Pensamentos, sentimentos e percepções são importantes e
afectam o comportamento
O comportamento é importante : pensamentos e emoções são
subprodutos da fisiologia e/ou do comportamento
O comportamento ultrapassa o utilitário
O comportamento é utilitário
Pode considerar a espiritualidade
Geralmente, não considera a espiritualidade
São válidos os métodos de pesquisa subjectivos
São válidos os métodos objectivos
Fonte : HAGEDORN, 1999, p. 51
Pensando nas AVDs, dentro do metamodelo reducionista, o
terapeuta ocupacional actua dando enfoque apenas no
desempenho do indivíduo, isto é, analisa as disfunções
dos segmentos corporais e passa a treinar, através de
actividades, as funções perdidas ou não desenvolvidas.
Adquiridas ou recuperadas o desempenho destas funções o
trabalho do terapeuta ocupacional está concluído.
Dentro do metamodelo holístico, o terapeuta ocupacional
visualiza as AVDs como parte integrante da vida do
Homem, assim, não basta apenas treinar o desempenho, há
necessidade de entender sua história de vida, seus
desejos, suas necessidades, seus medos e suas
habilidades. As AVDs aqui não são trabalhadas de forma
isolada, e sim dentro do contexto do planeamento
terapêutico ocupacional, buscando uma melhor qualidade
de vida e, principalmente, que este Homem consiga
transpor as habilidades adquiridas, durante as sessões
de terapia ocupacional, para sua vida quotidiana, como
um ser independente. É dentro deste enfoque que será
exemplificado o trabalho do terapeuta ocupacional.
Em função do vasto universo que engloba as AVDs, para
ilustrar o trabalho terapêutico ocupacional no enfoque
holístico, seleccionou-se a habilidade de vestir-se e
despir-se.
Na infância o desenvolvimento desta habilidade pode ser
utilizado para aquisição de conceitos como: esquema
corporal e orientação espacial. Pode também propiciar a
aquisição do equilíbrio estático e da quebra de padrões
patológicos.
O terapeuta ocupacional não pode restringir sua prática
às sessões terapêuticas, pois a criança passa a maior
parte do tempo junto aos seus pais e/ou cuidadores,
precisa, desta forma, orientá-los para que os manuseios
adequados sejam inseridos na rotina diária da criança.
Os pais e/ou cuidadores de uma criança com menos de 1
ano, portadora de transtornos motores e/ou sensoriais,
devem ser orientados pelo terapeuta ocupacional quanto a
necessidade da estimulação do esquema corporal durante
as trocas de roupa, por exemplo ao colocar a camiseta na
criança :
"Vamos esconder a cabeça do bebé (colocar a camiseta
pela cabeça) .... achou (quando a cabeça ultrapassa o
orifício)"
"Agora a mãozinha do bebé vai passar pelo túnel (colocar
a mão pela manga da camiseta), agora é o bracinho que
vem atrás"
"Olha! O umbigo do bebé sumiu....(abaixar a camiseta)"
Esta interacção lúdica entre pais e filho auxilia a
aquisição das noções corporais, e das etapas da
habilidade de vestir, contribuindo para uma
independência futura nesta tarefa.
É importante aproveitar este momento também para
desenvolver a movimentação adequada das crianças
portadoras de alterações motoras, principalmente de
paralisia cerebral, evitando o desencadeamento de
reflexos patológicos e facilitando a dissociação da
movimentação das cinturas escapular e pélvica.
Assim, o terapeuta ocupacional deve orientar os pais
e/ou cuidadores para que quando a criança estiver em
decúbito dorsal pode-se aproveitar para realizar a
manobra do "pacotinho", que é a tríplice flexão dos
membros inferiores, isto auxilia na quebra do RTL
(reflexo tónico labiríntico) padrão de extensão, o qual
impede a criança de elevar a cabeça e de rolar para os
lados. É importante depois, colocar um apoio na cabeça
para elevá-la, evitando o retorno do RTL.
Ao vestir ou despir a bermuda, calça ou saia, realizar a
rotação lateral da cintura pélvica para um lado e depois
para o outro. Ao vestir ou despir a camiseta, iniciar
pela cabeça sempre de trás para frente, evitando o
desencadeamento do RTL. Ao tirar ou colocar os sapatos,
é importante que a criança esteja sentada no colo de um
dos pais ou cuidadores, para que a criança visualize e
auxilie na execução da actividade.
Esta orientação não pode estar restrita a explicações
verbais, o terapeuta ocupacional deve demonstrar o
manuseio e depois solicitar que os pais reproduzam, para
possíveis correcções, evitando que os pais executem de
forma inadequada em casa. Estas orientações devem ser
paulatinas e constantes para que sejam realmente
assimiladas e introduzidas na rotina diária da criança.
É importante que a criança sempre participe de toda a
etapa, e para isso os pais e terapeutas devem solicitar
a colaboração dela e permitir um tempo de latência entre
o que foi solicitado e a acção (ou intenção de acção),
pois normalmente essas crianças são mais lentas e, se
não houver esta espera, elas não terão interesse em
participar da acção novamente.
Em crianças maiores, o terapeuta ocupacional deve
estimular a realização destas tarefas o mais
independentemente possível, assim, os auxílios devem ser
apenas de suporte para a acção autónoma da criança.
Estas tarefas não devem ser treinadas à exaustão no
decorrer de uma sessão de terapia ocupacional, e sim
fazer parte de um contexto, pois quando a criança chega
para o atendimento deve ser estimulada a tirar os
sapatos, as meias, a camiseta, a bermuda ou a saia, para
que se sinta mais livre para executar as actividades
terapêuticas.
Neste momento a criança necessita estar bem posicionada,
para ter segurança durante a movimentação. Ao desamarrar
o atacador do sapato, ou puxar a tira da sandália fixada
com velcro a criança terá necessidade de realizar o
movimento de pinça, assim, terá a oportunidade de
exercitar esta habilidade. Caso a criança não possua as
condições para desenvolver este movimento, caberá ao
terapeuta ocupacional a utilização de alguma adaptação
para facilitar esta função enquanto esta habilidade é
exercitada em outras actividades.
Ao retirar ou vestir a bermuda, calça ou saia, a criança
deve ser estimulada a realizar a rotação de quadris,
isto é muito importante, pois auxilia na dissociacção
das cinturas pélvica e escapular, movimentos presentes
na marcha independente.
Ao vestir a camiseta, bermuda, sapato, etc, pode ser
trabalhado os conceitos de direito – esquerdo, avesso –
direito, frente – costas. As crianças portadoras de
disfunção motora, apresentam certa limitação na
exploração do ambiente tendo dificuldades de desenvolver
as noções de orientação espacial, desta forma as AVDs
podem contribuir para a aquisição destes conceitos.
É importante permitir que a criança execute as etapas do
vestir e despir dentro de seu ritmo, pois se os pais,
terapeutas ou cuidadores apresentarem-se ansiosos na
execução e conclusão da tarefa, a criança não terá
estímulo para continuar a executar a mesma e tornar-se-á
sempre dependente de alguém para seus cuidados. É muito
comum os pais não estimularem a criança nesta
independência por acharem que levam tempo demais para se
vestirem, entretanto é importante esclarecer-lhes que,
se elas não exercitarem estas habilidades, serão sempre
dependentes de cuidadores, dificultando sua autonomia.
O terapeuta ocupacional pode utilizar as AVDs como mais
um recurso terapêutico, estimulando para que a criança
inclua em sua rotina diária estas habilidades,
desenvolvendo sua independência, e propiciando uma
melhor qualidade de vida, facilitando, assim, sua
inclusão social.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Trombly, c. a. Terapia ocupacional para disfunção
física. 2ª ed. São Paulo : Santos,1989, 514 p.
Hagedorn, r. Fundamentos da prática em terapia
ocupacional. São Paulo : Dynamis editorial, 1999, 200 p.
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