Texto gentilmente cedido pelos autores identificados em rodapé.
 


 

        

 

 

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Acidente Vascular Cerebral (AVC)

É a doença que as pessoas costumam denominar “derrame”, ou “isquemia”, ou ainda “trombose cerebral”.
O AVC é a maior causa de morte no Brasil e a principal causa de lesão permanente (seqüela, incapacidade) em adultos. Tem sido dado ênfase ao seu conceito e entendimento, para um maior reconhecimento pela população e manejo mais apropriado.
No meio médico, o termo consagrado pelo uso é o de Acidente Vascular Cerebral (AVC), que pode ser definido como um déficit neurológico (sinal e/ou sintoma) causado por interrupção do fluxo sangüíneo a uma determinada região encefálica. A palavra encéfalo corresponde a todas as estruturas neurais contidas no crânio (a parte intracraniana do sistema nervoso); portanto o termo conceitualmente mais correto seria Acidente Vascular Encefálico. Mas como a tendência tem sido adotar o termo mais difundido e de mais fácil compreensão, o AVC é o objetivo de minha explanação. Até mesmo o termo “ataque cerebral” foi criado na tentativa de educar a população para o seu reconhecimento e manejo como uma verdadeira Urgência Médica.

O AVC pode ser classificado em duas grandes categorias:

· AVC isquêmico: quando ocorre oclusão de um vaso sangüíneo (artéria) que irriga determinada região encefálica, privando essa região de nutrientes e oxigênio. A oclusão decorre da presença de coágulos que se desenvolvem dentro da própria artéria (trombose cerebral) ou em algum outro local anterior por onde o fluxo sangüíneo já passou, por exemplo, coração ou artérias carótidas ao nível do pescoço. O deslocamento do coágulo até ocluir uma artéria cerebral chama-se embolia cerebral.

·  AVC hemorrágico: quando ocorre ruptura de um vaso sangüíneo encefálico..
A maioria dos pacientes com AVC apresentam fatores de risco. A melhor forma de prevenir o AVC é identificar essas pessoas e controlar os fatores de risco possíveis. Alguns fatores associados potencializam o risco, por exemplo, o uso de anticoncepcionais e o fumo.
Os fatores de risco podem ser modificáveis: hipertensão arterial, tabagismo, diabete, doenças cardíacas, alterações na coagulação sangüínea, alterações do colesterol e frações, presença de sopro carotídeo (ruído anormal no pescoço percebido pelo exame médico).

Outros fatores de risco não são modificáveis: idade (a ocorrência aumenta acima dos 55 anos), sexo (homens têm maior risco mas as mulheres vivem mais além dos 65 anos), raça negra, hereditariedade (pessoas da mesma família costumam ter fatores de risco em comum).

Ataques isquêmicos transitórios (AIT) devem ser reconhecidos, pois pode haver prevenção de um AVC iminente; o AIT é um sinal de alerta, um “aviso”. O AIT é ocorrência súbita de sinal (problema que o médico e outras pessoas podem constatar) ou sintoma neurológico (problema que apenas o paciente percebe) com duração de minutos a algumas horas. Significam a obstrução de circulação encefálica por um pequeno coágulo que se dissolve em seguida.
O primeiro passo para permitir o tratamento ideal do AVC ou AIT é o reconhecimento dos sinais e sintomas mais comuns, que variam conforme a parte do sistema nervoso atingida e geralmente surgem de forma repentina. São eles: fraqueza ou dormência numa parte do corpo, dificuldade em falar, compreender, ler ou escrever, piora súbita na visão, dor de cabeça fora do comum e vômitos, visão dupla, desequilíbrio, vertigem e tontura, convulsão, desmaio ou sonolência, e rigidez na nuca.
O tratamento de suporte, baseado no tratamento de complicações pulmonares e cardiovasculares era, até recentemente, o único tratamento disponível para muitos pacientes. Devido à falta de opções de tratamento para alterar o curso da doença, pouca ênfase era dada à necessidade de intervenção. Atualmente, o aparecimento de algumas medicações e o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas mais avançadas e criteriosas possibilitam diminuir a lesão neurológica e reduzir ou até evitar seqüelas.

O sucesso do tratamento depende da seguinte estratégia:

1. Educação dos pacientes de risco;
2. Reconhecimento precoce dos sinais e sintomas de AVC;
3. Transporte rápido ao hospital;
4. Existência de setores especializados no tratamento dessa doença, nos hospitais de referência (Unidade de AVC);
5. Acesso a exames especializados (tomografia, ecodoppler e angiografia), a medicações especiais e à equipe de especialistas (neurologista e neurocirurgião).

O tratamento inicial inclui o ABC dos cuidados de emergência (Airway, Breathing e Circulation), bem como a monitorização dos sinais vitais. Familiares e testemunhas podem interferir no “Airway” (manejo das vias aéreas) deixando as pessoas inconscientes deitadas de lado em caso de vômitos, ou puxando a mandíbula para frente. Não devem ser colocados objetos ou os dedos na boca do paciente.
Etapa importante na avaliação médica é o diagnóstico diferencial com outras doenças que podem se manifestar de forma semelhante ao AVC. A tomografia de crânio é o exame complementar mais importante, servindo para mostrar a área cerebral atingida (às vezes a isquemia não se mostra nas primeiras horas), a presença de hematoma e outras complicações do AVC.
O tratamento consiste em cuidados gerais do paciente grave, oxigenação adequada, controle ideal da pressão arterial, controle de convulsões e da pressão intracraniana (que pode estar aumentada por hematoma ou inchaço e agravar a lesão cerebral). É sabido que lesões cerebrais graves podem causar alterações em outros órgãos do corpo.
Nos casos de AVC hemorrágico, grandes hematomas podem levar rapidamente à morte, podendo ser necessária a realização de neurocirurgia de urgência. Às vezes, a colocação de um simples dreno pode salvar a vida do paciente. Quando na investigação, a causa da hemorragia for atribuída à ruptura de um aneurisma cerebral (dilatação em uma artéria cerebral), geralmente está indicada uma cirurgia com auxílio de um microscópio para o tratamento definitivo. Alguns trabalhos também apontam para o benefício da drenagem de hematomas por técnica estereotáxica, em que se calcula a localização exata da doença através de uma aparelhagem especial. Mesmo no AVC isquêmico, a cirurgia pode ter papel importante, como na cirurgia para descomprimir um grande inchaço (edema) da parte do encéfalo atingida pela isquemia, na colocação de dreno ou na desobstrução da artéria carótida ao nível do pescoço por aterosclerose (endarterectomia).
No manejo do AVC isquêmico um importante estudo mostrou que os pacientes tratados com a medicação Alteplase (um trombolítico, i.e., que dissolve coágulos) dentro das primeiras horas de início dos sintomas apresentaram trinta por cento ou mais de chance de terem sequelas mínimas ou ausentes. Apesar de revolucionária, essa terapia trombolítica exige a seleção cuidadosa dos pacientes por especialistas e infra-estrutura adequada. Também o uso de drogas anticoagulantes pode trazer benefício, mas o seu uso deve ser igualmente criterioso.
O tratamento com trombolítico ainda não é utilizado rotineiramente no nosso meio devido à falta de educação específica na população e mesmo no meio médico. Se aplicado de forma abrangente pode resultar em redução nas seqüelas e mesmo na redução dos gastos com o sistema de saúde. O AVC deve ser entendido e tratado como uma URGÊNCIA MÉDICA, em unidades especializadas a serem criadas nos hospitais para combater uma doença que até então deixava invariavelmente seqüelas permanentes e suas conseqüências para o doente e familiares.

Dr. Leandro Infantini Dini
Neurocirurgião – CRM 21.947
Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurologia
Título de Especialista pelo MEC e SBN

 

 

 


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